Estou vendo e ouvindo a CNN. Acompanho as campanhas de Donald Trump e Hillary Clinton ao redor dos Estados Unidos. Um país considerado “cult” para uns; “kitsch”, para outros. Há muitas origens distintas e caracteres bem diferente da ideia que se tem do antigo “american way of life”.
Nem era bem adulto quando, pela primeira vez, estive por lá. Voltei outras. Nesse longo tempo já vi muita gente e coisas: presidente, manifestações de negros sobre Washington, universidades, ciclone, peças de teatro, funerais, museus, galerias de arte, parques de diversões, rua de drogados, cemitério para heróis de guerras, festivais, dias da Independência e de Ação de Graças, Natal, Ano Novo, marcha de ex-combatentes do Vietnã, Iraque etc.
Conversei com professores, estudantes, motoristas, lixeiros, garçons e, cada vez mais, me convenço de que a América não é um país. É o que a Europa luta para ser, uma espécie de Confederação.
Tímida, atrevida, irreverente, grandiosa, conservadora, racista, inovadora, cosmopolita, vitoriosa, derrotada, caipira, monoglota, poliglota, organizada, polivalente, tudo isso é a América e esse retrato me sai difuso, confuso, complexo e desfocado. Especialmente, quando um candidato a Presidente falar em construir muro de 3.000 km para isolar os EUA do México. Absurdo.
Quando se analisa uma pessoa, embutimos no juízo de valor toda a nossa história. Quando se deseja conhecer um país é natural que entrem, de roldão, a nossa empatia, simpatia ou antipatia. Ninguém é isento diante de tantos contrastes e incongruências que constituem um Estado tão peculiar quanto os Estados Unidos.
Quer-se julgar o que se vê apenas com os olhos, mas é necessário vê-lo com lente mais ampla para descobrir a ordem existente em meio a um caos aparente. Não é mera ficção ou ilusionismo.
A grande maioria das empresas americanas está hoje voltada para uma concorrência global desenfreada, e isso provocou ajustamento profundo nos setores de informação e automação. Há milhões de desempregados, vivendo da segurança social.
Segundo pesquisas, há desaceleração da expansão econômica, medo de desemprego maior e da concorrência estrangeira, ao mesmo tempo em que se reclama do aumento dos impostos, dos gastos governamentais, do protecionismo e do declínio da atividade industrial. Lembrem-se: a China, agora, é grande concorrente e, ao mesmo tempo, mercado para as empresas americanas. Atracão e reação.
Hoje, neste agosto, três meses antes da eleição da pessoa que substituirá Barack Houssein Obama, os Estados Unidos parecem um grande computador onde quase todos acessam o que querem ou imaginam desejar, mas a chave está, digamos, com o Google, que sabe tudo de todos.
O americano médio ou comum, como o imaginávamos, não existe mais. Hoje, a força dos imigrantes no trabalho, nas universidades, na tecnologia e nas ciências, deu nova face a um país que se imaginava apenas branco, anglo-saxão e protestante. Judeus, árabes, latinos, eslavos, asiáticos e europeus se miscigenaram, na medida do possível, com os nativos e tornaram os Estados Unidos esse amálgama quase indecifrável.
Disso tudo, fica a sensação de haver um processo em fervura com novos paradigmas. Os que vêm de fora aceitam – ou desistem – as regras consagradas quanto à ordem e ao modelo econômico. Os “americanos” já não torcem tanto o rosto ao ver o vizinho asiático sair em um reluzente Mercedes Benz. Maior que o antagonismo atávico aos não anglo-saxões e às minorias raciais é o respeito aos que fazem a América e conseguem, superando os obstáculos da língua e da raça, ser respeitados pelo sucesso, ainda a religião mais forte do país.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/08/2016.

