Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito. Findo – para alguns – o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e cultivar ou recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser reinstigada para o hoje com ações, boa companhia, leitura de jornal, revista, livro e o maldito ou bendito computador. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca. E por saber que a vida não é sonho é que Elano Paula ou Elano Viana de Oliveira Paula perdeu o umbigo em Maranguape e a inocência no Rio de Janeiro. Seria dual ou múltiplo, sempre. Fez-se adulto, ainda jovem. Misturou engenharia civil com serviço militar. E se fez capitão. A guerra já era e ele entrou noutra. A da vida. E por ser hábil em várias coisas, se fez radialista, produtor, compositor, engenheiro, construtor, escritor, pintor e cético/crente. Como os homens não vivem sós e não podem dublar sentimentos viu-se apaixonado por uma voz e uma cabeça e o corpo veio junto. Acasalou-se por pouco menos que meio século. E, enquanto viviam, Elano mexeu com quase tudo, ao mesmo tempo. É testemunha da ação da mortalidade, a contragosto. Daí viu-se só. Mas não seria o ocaso. Veio o acaso – se existe – bem de perto, mas era de longe, do Estado onde o seu pai se exilara para viver como queria. E aí o ardor hibernado, aflorou. E foi jorro de benquerenças, desafiando diferenças e enfrentando até olhares dúbios. Que olhares? Ninguém vive a vida do outro. O outro é que sabe – quando sabe – de si. E então neste primeiro ano da segunda década do século XXI, no mês segundo, do dia 1 ao 5, estamos comemorando o baobá em que se transformou Elano de Paula. E esse baobá frondoso é madeira de lei, com viço, energia, inteligência, argúcia, capacidade crítica e vida plena.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/02/2010

