ELAS NÃO FALAM

Para quem não sabe: sou um “cinemeiro”. Gosto de filmes em tela grande e dos que mexem com a nossa cabeça. Gosto de ver além do filme, atento aos detalhes. É um exercício a que me proponho desde a juventude e fico alegre quando por quase duas horas somos, por exemplo, impactados pela dureza e a beleza das danações do Pedro Almodóvar em “Fale com Ela”. Não se pode, por menos que se deseje, dissociar a opção sexual e o amor extremado à mãe de Pedro Amodóvar das situações que cria neste seu novo filme. Benigno é o filho da mãe. Aquele que sacrifica vinte anos de sua vida ao lado de uma mãe que dele exige tudo. Resta-lhe a réstia de uma janela onde a sua utopia de amor é transferida para uma desconhecida inatingível, Alicia. São dois vidros, uma rua e um mar de diferenças. A carteira caída ao chão, apanhada por Benigno e entregue à Alicia, um clássico recurso, não serve para atar os laços pretendidos. E ela se vai por trás do grave portão. Fazer-se analisado pelo pai dela é uma tentativa de aproximação e mostra a sua ambigüidade como ser humano o que o habilitará, paradoxalmente, no futuro, a cuidar de Alicia.
Na outra trama, Lydia e Marco vivem uma relação conflituosa e a toureira destemida tem medo de cobras. O matador de cobras é um homem que chora ao ouvir música e ambos se encontram em seus descaminhos de segunda ronda.
Para unir essas situações díspares surge o hospital “El bosque”, – seria uma alegoria à Bela Adormecida no bosque? – ao qual são levadas, em tempos diferentes, em coma profundo, as duas mulheres do filme, Alicia e Lydia. É nesse cenário em que as relações de dois homens diferentes por suas naturezas – um é enfermeiro-terapeuta e outro é jornalista-escritor – passam a se casar. E o casar aí é a minha mordacidade, pois Almodóvar faz questão de manter um clima de amizade que beira à amor.
E tudo acontece de forma surrealista, mas com uma naturalidade que faz rir e comover. Não importa se o que se conta é verossímil, não importa nada. O que Almodóvar e seus personagens desejam passar é, entre outras coisas, a mensagem que as pessoas só se comunicam quando um fala e o outro, bem o outro é o outro.
Não se discute o final do filme, as razões das músicas cantadas por Caetano, visualmente parecido com a toureira Lydia, e Elis Regina em “off” – quando a toureira é golpeada – mas a sua tessitura intimista, limítrofe de monólogos recheados de sensualidade não compartilhada e a consciência de que é possível amar unilateralmente, mesmo que isso doa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/11/2002.

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