Há muitos anos corre nos Estados Unidos a expressão “banana republic”, referindo-se, de modo pejorativo, a países da América Latina que, durante algum tempo, foram meros exportadores de banana. Agora, o grande país do norte, está embananado e teve as vísceras de um arcaico sistema eleitoral exposto à exaustão para todo o mundo via televisão, internet, jornais, rádios e revistas. No domingo passado, havia escrito que a eleição seria muito difícil e que ambos os candidatos tinham chances Na madrugada do último dia sete para o dia oito, passei quase toda a noite defronte o meu aparelho de televisão acompanhando o processo eleitoral americano, vendo e ouvindo as duas CNNs, a BBC, a Globonews, a RAI e a, cada notícia, eu ficava mais confuso. Houve um instante em que Al Gore telefonou para George Bush cumprimentando-o pela eleição. Pouco tempo após, ligou novamente pedindo para desconsiderar o telefonema anterior. Cedo da manhã fui andar e referi a amigos que a eleição americana parecia a de uma cidade do interior do nordeste, antes do advento da urna eletrônica. Com um detalhe, não terminava.
Pesquisei as razões de tanta confusão e descobri: 01. O Estado de New York utiliza máquinas de votar com 38 anos de idade; 02. Incluindo New York, 25% dos eleitores votam nessas engenhocas. 03. Dois por cento do eleitorado americano votou em cédulas de papel como se fazia antigamente no Brasil. 04. Somente oito por cento das cidades utilizaram urnas eletrônicas. O5. As cédulas eleitorais não são padronizadas. Cada Estado pode fazer um tipo, inclusive delegar para municípios, como ocorreu em Palm Beach. 06. Por causa disso, a cédula eleitoral utilizada em Palm Beach, na Florida, era confusa – embora tenha sido aprovada pelos dois partidos, pois ao lado do nome de Al Gore tinha quase três círculos (um deles deveria ser perfurado com uma ponta de caneta). 06. O candidato do nanico Partido da Reforma, Pat Buchanann recebeu cinco vezes mais votos em face do círculo com o seu nome ter ficado (e confundido) ao lado do de Gore. 07. Dezenove mil votos foram invalidados por terem sido perfurados (acidental ou propositadamente?) duas vezes. Em quase todos, o circulo de Al Gore estava perfurado junto ao de outro candidato. 08. Três ações populares já deram entrada na Justiça da Florida pedindo a anulação das eleições. 09. Parece haver um choque de competência entre a Justiça da Florida (governada por Jeb Bush, irmão de George)e a Justiça Federal para decidir a validade ou não do processo eleitoral naquele Estado. 10. Pode até haver decisão no tapetão, como diria um locutor esportivo.
Para concluir, a jornalista Maureen Dowd, do “The New Times”, disse: “agora a campanha de Gore declarou guerra às excentricidades eleitorais digna de uma república de bananas”. Viram em que dá falar mal dos outros: o feitiço virou contra o feiticeiro. E agora Tio Sam?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/11/2000.

