ELEIÇÕES: CÁ E LÁ

Fico pensando que no próximo domingo, dia 31, eleitores, de 44 médias e grandes cidades brasileiras, estarão escolhendo, em segundo turno, obrigatoriamente, os seus prefeitos. No Brasil, somos obrigados a votar. Dizem que é uma forma de aprimoramento democrático. Devemos escolher sempre entre duas pessoas, geralmente de pensamentos opostos, que admitem ter soluções e respostas para todos os calcificados e endêmicos problemas urbanos. Dois dias após, os eleitores americanos, que desejarem, estarão votando para eleger o presidente dos Estados Unidos. Lá o voto é opcional, vota quem quer. Dizem por lá que não votar é uma expressão de liberdade, de democracia.
O que tem uma coisa a ver com a outra? Nada e tudo. Nada porque as cidades brasileiras, aparentemente, pouco têm a ver com a realidade americana. Tudo, porque da decisão da escolha do Presidente americano, dependerá, quer queiramos ou não, parte do modo de viver da humanidade.
A pobreza das cidades brasileiras – e isto inclui São Paulo – é fruto, entre outras coisas, de uma falsa autoestima da sociedade dita culta e dos que se consideram ricos. Somos meros copiadores de padrões que nos repassam a academia, a moda, as grandes empresas transnacionais, a televisão, e os outros meios de comunicação. Não criamos ainda uma identidade nacional e até parece que temos vergonha disso. Não aprendemos a nos contentar com o essencial, mas buscar o supérfluo e a copiar o que tem de pior nas sociedades ditas avançadas. Aprendemos a olhar os nossos pobres e miseráveis com desdém e a nada fazer por eles, como se fossem pessoas de outras naturezas e nos encastelamos em nossas casamatas com seguranças, alarmes e medo.
Igualmente, nas sociedades avançadas, se fez do medo a motivação para a guerra. Se você é social ou racialmente diferente, se não pensa como a maioria, pode ser uma ameaça que precisa ser isolada, rechaçada ou exterminada. Lá e cá não se ajuda a erradicar as causas da pobreza que passam pela baixa ou nenhuma educação e do absoluto paradoxo que a vida industrial nos relegou: as máquinas precisam de pouca mão-de-obra e os “pobres e os ignorantes parecem não ter jeito”. Esperemos que cá e lá tenhamos um mínimo de bom senso na hora de votar, para não continuarmos neste intrincado mundo em que a saída mais parece um denso labirinto que se assemelha a trincheiras cavadas repletas de cansados e confusos combatentes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/2004

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