Creio que muita gente já esteja cansada com essa história do menino cubano Elián, salvo pela Guarda Costeira americana, após a mãe ter morrido na travessia marítima Cuba para Miami. Essas viagens-aventuras são uma constante há 40 anos e sofrem tripla repressão: do mar do Caribe que não gosta de embarcações frágeis; do governo cubano, que não quer fugas; e do governo americano, que não aceita mais imigrantes.
A mídia encarregou-se de transformar o episódio em audiência e logo parentes (exilados em Miami), não tão próximos (tios-avós) arvoraram-se em guardiães e fecharam questão pela permanência de Elián nos Estados Unidos. Ano eleitoral naquele país, mais um ano na provecta gestão de Fidel Castro e o problema estava criado. Fidel mandou o pai de Elián buscar o menino. Foi aí que a Secretária de Justiça, Janet Reno, disse o óbvio, o pátrio-poder pertence ao pai de Elián e, fez isso transformar-se em realidade com o uso de força. Tudo isso já se conhece, o que não se sabe é o que vou imaginar agora, dando uma de futurólogo, deixando claro que todos os futurólogos que conhecemos erraram muito. Vamos a quatro hipóteses, sempre considerando que estamos no ano 2015 quando Elián completa 21 anos. Claro que é apenas imaginação. Ao Elián desejo um futuro de paz, saúde, prosperidade e longevidade.
Hipótese 01 – Elián fica em Miami, pois seu pai morre de botulismo ao comer um frango cubano. Volta para os tios-avós e matricula-se em uma escola pública. Deixa de ser notícia e, entediado, por ser considerado um estranho em sua escola, mete-se com drogas aos 14 anos, engorda 30 quilos ao ser internado em uma clínica de desintoxicação, abandona os estudos, vai morar com uma imigrante curda, após ser expulso pelos tios-avós, trabalha em uma boate latina como cozinheiro e está na iminência de perder seu visto de permanência por porte de arma branca, uma faca de cozinha que, segundo ele, pretendia amolar em casa.
Hipótese 02 – Elián volta gripado com o pai para Cuba em barulhento e velho avião Tupolev russo. Vai direto para um comício em que Fidel Castro o levanta nos braços como troféu e, mesmo espirrando, ouve três horas de discurso. Desmaia e é levado a um hospital onde são diagnosticadas pneumonia e otite. Recebe alta em duas semanas, surdo de um ouvido. A primeira coisa que deseja comer, ao sair à rua, é um BigMac e leva um bruto carão da assistente social que o acompanha. Estudou agrimensura. Hoje, anos após a morte de Fidel Castro, está trabalhando em Matanzas como técnico agrícola e já é pai de Elián Júnior. Tem um sonho recorrente: Lembra de um vídeo que viu aos seis anos em que um rato (Mickey) leva vantagem sobre um gato.
Hipótese 03 – Uma associação de exilados cubanos nos Estados Unidos requer – e consegue – seja feito um exame de DNA em Elián e em seu pai. Resultado: Elián não é filho do pai. O governo americano procura a família de sua mãe, mas há um complicador. A mãe não pode ser dada como morta, pois ninguém é considerado morto sem um corpo para comprovar. Dessa forma, a Justiça americana determina que Elián fique em custódia em um abrigo para crianças órfãs, cresce estudando em uma escola pública e, aos 21 anos, pretende ser mórmom.
Hipótese 04 – Seu pai pede asilo político nos Estados Unidos. Elián aprende a jogar basquetebol, consegue destacar-se em esportes na universidade, foi contratado pelo time do Giants e ganha 50.000 dólares por mês. Antes de cada jogo repete, em espanhol, para os companheiros atônitos: “Patria o Muerte”. Sempre que pode visita Janet Reno, que mora em um asilo para velhos em Maryland onde se diverte fazendo crochê e comendo os chocolates que Elián lhe leva.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/04/2000.

