ENCONTRO ACIDENTAL – Diário do Nordeste

Andava eu pela orla em horário que não o de costume. Manhã alta, sol derretendo. De repente, vejo alguém que me parece íntimo. Fazia flexões de pernas amparado em um poste. Tal como o faço. Apresto o olhar, reflito e concluo que já o vi em solenidades, televisão e jornal, mas nunca havíamos falado. Em dúvida, perguntei-lhe o nome. Confirmou, com simplicidade. Era quem pensava. Estávamos de calção e camiseta. Somos da mesma década e, por conseguinte, imaginamos saber algo do Brasil desde muito tempo. Cada um com seu olhar. Carregava uma garrafa de água na mão direita e nada na cabeça suada que sofria com o sol. Recomendei que usasse um boné. Responde que o perdera no último voo. Enveredamos pelas sendas que mais gosta: política e Brasil. Fomos de fio a pavio. Do que fizera, do que deixara de fazer e como se sentia hoje na vida que não planejara. Impuseram-na e tiraram-lhe a legitimidade necessária para estar, quem sabe, no lugar dela nesta pugna de 2010. Apesar disso, estará junto para o que der e vier. Sua voz ainda traz o jeito mineiro do interior, não o erudito dos personagens modernistas de João Guimarães Rosa, em “Primeiras Estórias”, mas, quem sabe, o da simplicidade da linguagem de Fernando Sabino. Falou da mãe, que tem a idade da minha, e hoje, em face de sua nova faina, ganhou a primeira casa própria em toda a sua vida de mulher do interior. Ele, “globetrotter” por vida e circunstâncias, resolveu, agora, sair da cidade grande para morar nos arredores, mas sem deixar de cuidar dos escritórios que lá montou em profissão até então inativa e hoje em perfeita ordem. Disse que estivera em Portugal, não era dado a vinhos e comilanças e isso o deixara com um laivo de ardência que não o disponibilizava para o guaraná artesanal. Caminhávamos em direção ao sol. Cumprimentei amigos que não o identificaram. Aumentamos os nossos passos enquanto a terra dos irmãos Castro entra no papo e ele, que lá morara, acredita que, nesta década, a pequena ilha manterá o brilho eclipsado pelos embargos já nos estertores. Ao final, sob uma copa de árvore, pede licença e consulta o seu BlackBerry. Deixa seu e-mail. Apertamos as mãos. Atravessa a pista.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/2010.

Sem categoria