Um amigo de velhas datas liga pedindo uma hora para conversar comigo. Como esse amigo sabe que não revelarei seu nome, nem sob tortura, posso me permitir escrever, em linhas gerais, sobre o teor da nossa conversa. Aliás, eu submeti este artigo à sua análise.
Um dia, dirigindo o seu carro após o trabalho, veio aquela dor violenta entre as costas e o peito e ele teve força de chegar a um hospital. Saiu de lá dez dias após com três pontes de safena, recomendações sobre mudança de estilo de vida e uma porção de remédios a tomar todos os dias, pelo resto da vida. Chamou a mulher e disse desejar repensar sua vida. Ela chorou abraçada a ele e ficou calada. Ficou mais 20 dias em casa. Os dias não passavam, a televisão cansava e a cabeça não parava de martelar questões sem respostas.
Esse meu amigo desejava trocar ideias sobre ele, sua empresa e seus filhos. Descobrira-se mortal. Reuniu a mulher e os filhos para uma conversa. Disse que ia tirar o time de campo e queria saber a opinião de cada um. Foi um Deus nos acuda. Segundo ele, os filhos ficaram apavorados, pois ainda não estavam preparados para comandar a empresa, feita com muito trabalho, dedicação e renúncia.
Por essas dúvidas ele me procurou e conversamos mais do tempo combinado. Relembramos fatos, demos algumas risadas e até algumas lágrimas rolaram, talvez pela certeza da finitude e da nossa incapacidade de administrar situações complexas.
Lembrei – me, rindo comigo mesmo, da condição de “conselheiro” e me descobri sem quase nenhuma capacidade de ajudá-lo. Preferi que, nós dois, entendêssemos os dramas na sua cabeça e analisássemos o que, igualmente, poderiam pensar – naquela situação – os seus filhos. Uma coisa estava definida para ele: queria escolher alguém capaz para dirigir os negócios no lugar dele. Ele ficaria apenas dando as diretrizes. A quem escolher? Falou, com carinho, sobre os filhos, quase todos formados, mas nenhum quisera fazer mestrado ou ganhar experiência trabalhando em outras empresas. “Não tinham estrada” e não conheciam, no duro, o chão de fábrica. Viviam do que a empresa lhes pagava e não esperavam, para tão rápido, a possibilidade de um deles ter de assumir, para valer, a direção do negócio. Talvez, por culpa do meu amigo, não eram ainda trabalhadores profissionais, de sol a sol, não conheciam o seu atual nível de “stress”, nem amargaram anos de lutas e as noites em claro antes de tomar decisões.
A partir de suas informações, fizemos o perfil de cada um e, além de todos os problemas, como sombras, as figuras de nora e genro apareceram. A coisa complicava e eu sem saber mais o que dizer. Por fim, lhe sugeri optar por alguém de fora da família, com características e habilidades semelhantes às que ele acreditava ter ou queria para a empresa, neste mundo competitivo, não morrer. Ele coçou a cabeça e pediu um tempo para pensar.
Há três dias recebi um telefonema dele. Contratara um profissional de excelente nível, na faixa dos 30 anos, ganhando quase o mesmo que seus filhos que ficaram resmungando e ele bateu firme na mesa. Estava decidido. Nenhum assumiria, continuariam fazendo o que sabiam e ainda era pouco. Hoje, ele viaja, pela primeira vez, à Europa. Boa viagem.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/12/1999.

