O título é “Enfim, sex” mesmo. Explico no final.
Foi há muito tempo, no meio da Segunda Guerra que minha mãe resolveu mostrar minha cara ao mundo. Com a festa do meu primeiro aniversário pronta, sendo o primeiro filho, o primeiro neto, o Brasil resolveu complicar: justo no dia decretou guerra às potências do Eixo. Resumo da opereta: a festinha teve como música de fundo o noticiário de um rádio a válvula em que o Presidente Vargas dizia ao povo brasileiro que não deixaria Hitler tomar conta do mundo. Hitler não deve ter dormido e meu pai, no albor dos seus 21 anos, tremia de medo de ser escolhido “voluntário”. Terminada a guerra houve o famoso julgamento de Nuremberg, enquanto isso eu me perdi no centro da cidade, mas soube dizer o meu nome e onde morava.
Prepararam outra festa para mim: a da Primeira Comunhão. Pois não é que a Seleção Brasileira resolveu perder o Campeonato Mundial de Futebol em pleno Maracanã, enquanto aprendia a dizer o ato de contrição e usava um terno de casimira azul com as calças curtas.
Tive meus 15 minutos de glória ao conversar com muita gente importante por aí, mas sempre é bom lembrar a síndrome do cavalo de Napoleão. Quem ficou na história foi o francês e não o cavalo que o conduzia.
Formei-me em pleno alvorecer da Revolução e casei à época do Ato Institucional nº 05. Daí para cá muita coisa aconteceu, o tempo passou ligeiro, mas não o suficiente para me levar muito a sério, do trabalho árduo e sem trégua. Se a vida nos é dada de graça, não há razão para siso. Rio quieto, com medo que pensem que sou doido. Vá lá que eu seja mais ou menos normal, pois acredito ter senso de integridade, fiz muita bobagem e, hoje, como o título de uma velha seção da revista “Seleções”, rio, pois rir é o melhor remédio, Chorei também, lágrimas divididas ou solitárias. . Tive e tenho problemas. Enfim, lágrimas lubrificam. As cicatrizes pensam as feridas, respiro fundo, o oxigênio brota, irrigo sonhos e faço sempre pactos com a esperança.
Bati pernas, muitas vezes, pelo mundo afora, mas sou daqui e aceito críticas, paciência. Procuro ter consciência dos meus erros, purgo minhas culpas e, às vezes, a dor é grande. Tenho medos, mas nunca fugi da luta. Faço força para ser congruente, ponderando palavras e atitudes, o que não é fácil. Quando não dá para segurar, digo o que sinto. Sou amigo, sem efusividades. Não gosto de puxar saco e oba oba. Amei e amo, tenho laços e engodos, sou passado e presente, caminho meus passos arrevesados de canhoto em um mundo destro e, às vezes, tropeço, literalmente. Levanto a cabeça e sigo em frente, sempre consciente das minhas limitações, desimportância e finitude. Tenho bem lembrado um provérbio mexicano: “Pegue o que quiser, disse Deus, mas pague por isso”. Paguei e devo ainda, com a consciência do muito a agradecer.
Mas falei que explicaria o sex. Uma amiga me disse certa vez: gastei muito para fazer plástica, ficar bonita e só encontrei sex. Eu disse que bom, você encontrou um homem sexy. Não, você não entendeu nada, ela respondeu, só encontro homem sex, sexagenário. Pois é, a contragosto meu e alegria, afinal, de amigos, alguns da onça, passo a fazer parte dessa categoria.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2001.

