Sérgio Braga perdeu a vesícula. Foi nesta semana. Vocês conhecem o Sérgio Braga? Ele mede 1,85m e pesa mais de 100 quilos. Pois esse ‘homão’ teve uma boba de uma crise de vesícula e ficou apavorado. Fez todos os exames com muito medo e, só após ter realizado o seu testamento, submeteu-se a uma ressonância magnética. Não tinha jeito, tinha de entrar na faca. O seu irmão e médico, Paulo, já não aguentava mais as perguntas e as medições diárias da pressão arterial.
Eu, ‘paramédico’ conhecido, fui incumbido de indicar o cirurgião e sugeri o nome do Dr. Campos. Ele, mesmo com toda a sua comprovada experiência, foi ainda submetido a uma sabatina pelo Sérgio. Eu não estava lá, mas imagino o doente, com aquele jeito de boi manso, perguntando: Doutor, o Sr. se garante, tem perigo de algo sair errado e eu morrer? O Dr. Campos teria rido e respondido: todos nascem e morrem um dia. O Sérgio quase desmaia e foi logo ligando para o anestesiologista José Teles pedindo-lhe para acompanhar a cirurgia, como garantia pessoal. Para culminar os preparativos, ele me liga e diz: João, será possível um cardiologista acompanhar a minha cirurgia? Lá vou eu ligar para a Dra. Emair, diretora do Hospital.
Data da cirurgia. O Sérgio, depois de inopinado registro, está deitadão na cama de seu quarto no hospital vestindo apenas uma minúscula bata. O relógio marca 10 horas e o Dr. José Teles se atrasa. O Sergio sua, apesar do ar-condicionado no máximo. O Dr. Campos entra no quarto, dá um bom dia e vê aquele gigante metido na sumária bata e pergunta se ele está pronto para a operação. Ele revira os olhos, reza para São Francisco, seu santo protetor, deixa cair duas lágrimas e vê o Dr. José Teles chegando. Apertam-se as mãos, o sangue corre melhor em suas veias e ouve, desconfiado, a conversa – em linguagem médica – mantida pelos dois médicos. A pré-anestesia começa a fazer efeito, uma maca chega e são necessários três maqueiros para transferir o Sérgio da cama para a maca. Ele sorri amarelo, os olhos pesados e apaga. Acorda, horas depois, são e salvo, e pergunta: escapei?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/07/2007.

