O conto é um dos gêneros literários que mais me atraem. É claro que gosto de romances, ensaios e poesias. Mas, o conto tem seus encantos. Por ser breve e ter um final, quase sempre, surpreendente, ele agrada e, muitas vezes, choca.. Segundo Alexandre Severino, autor de “The Brazilian Short Stories: Reflections of a Changing Society”, “o conto… com sua capacidade segmentada – a apreensão ilógica e inexplicada do momento atual da verdade – é a forma literária mais apropriada para a descrição da sociedade brasileira contemporânea”. Eu me arriscaria a dizer que não só da sociedade brasileira.
Uma condição do conto é ser curto, mas alguns autores teimam em escrevê-lo longo, quase um romance. A partir dessa premissa de que o conto deve ser curto, resolvi me questionar: e por quê não curtíssimo, um mero parágrafo que reflita um momento, uma história, uma fantasia, uma loucura, um sabor picante ou cáustico?
Passei então a escrever o que chamei de microcontos. Já escrevi quase cem deles. Mostrei ao Juarez Leitão e ao Pedro Henrique Saraiva Leão, intelectuais de carteirinha acadêmica, e eles disseram ter gostado. Julguem vocês.
Como a ideia é nova, é preciso que o leitor leia o microconto (MC) com atenção.
MC01. A música era forte e o som aumentava. Desistiu de matricular-se em uma escola de surdos e foi atropelado pelo carro silencioso.
MC02. O bandido olhou para o corpo morto e coçou a cabeça. Era o seu segundo engano. Precisa usar óculos.
MC03. No escuro do cinema sentiu a mão sobre sua coxa. Continuou olhando firme para a tela. Gostara do imprevisto. No final do filme, outro imprevisto. Era seu marido.
MC04. Lera Machado, Eça, Drummond, Trevisan, Rubião e só lhe perguntavam se conhecia Brida, de Paulo Coelho. Suicidou-se.
MC05. Londres, meia noite. Olhou para o Big Ben e viu a Lady Diana pendurada nos ponteiros do relógio e as badaladas não soaram. Meia noite e um minuto.
MC06. Subiu a escada do avião rezando. Sentou, afivelou o cinto, tomou o calmante e dormiu. Sonhou que estava dormindo e nunca mais acordou.
MC07. Era engenheiro de decisões concretas. Resolveria todas as dívidas. Caiu no caminhão betoneira. A viúva recebeu o seguro, não pagou as dívidas e casou com o dono da betoneira.
MC08. Aquela vontade no corpo e mulher nenhuma. Alô, é do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos a CUT, estamos em greve.
MC09. Correu atrás do pivete que lhe roubara o relógio. Depois de duas quadras o alcançou. Tomou o relógio, olhou as horas. Devolveu-o ao pivete e saiu correndo. Estava atrasado.
MC10. A mulher lhe obedecia, estava em um spa para emagrecer. Na data marcada, não voltou. Fugiu com um gordo.
MC11. A primeira equipe do FMI que chegou ao hotel foi logo abrindo as agendas e telefonando para as meninas indicadas pelo Ministro. Queriam acertar as contas atrasadas.
MC12. Era um novo rico perfeito. Depois que colocou as dentaduras superior e inferior, passou a usar flúor.
Apreciaria receber comentários dos leitores a respeito dos microcontos (e-mail jsn@planos.com.br).
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/1999.

