Neste 12 de outubro, Dia da Criança, também data da descoberta da América por Cristóvão Colombo, deixo uma colher mental dar uma mexida na panela onde foi cozinhada a minha infância e traga de lá memórias doces, como as cocadas feitas pela Ica que, de tão duras, passavam a quebra-queixo. E lembro que, por indicação da tia e professora Júlia Caminha, fui matriculado em uma escola americana, experimental, que me deu as primeiras luzes do mundo da escrita e da leitura. Depois, de armas e bagagens fui para o Farias Brito e lá cumpri todo o então chamado curso de humanidades. Gastava o tempo fazendo, por solicitação dos professores de Português Sildácio Matos e Fausto de Albuquerque, composições, dissertações e redações, tudo a partir de sugestões ou imagens mostradas em cartolinas. Sem falar nas aulas de Música e Canto Orfeônico com o prof. Pamplona que até metrônomo usava. Recordo das aulas de inglês do Ivan César, que torcia Fortaleza, e as de Ciências com o prof. Ailton Lóssio, pai do colega de sala, Júlio Jorge.
Morávamos na Rua Major Facundo, a missa era ao lado na Igreja do Carmo e para se ir ao cinema bastava andar quatro quadras e lá estavam os cines Diogo, Moderno, Majestic, Samburá e Art. E, um pouco mais tarde, o São Luiz. Estudava-se Francês no Franco-Brasileiro, a dois passos e Inglês no IBEU, logo ali na Rua Sólon Pinheiro, ao lado do Parque da Criança, onde se montavam quermesses, rodas-gigantes, tira-teimas e se comiam rolete de cana e pipoca nos barquinhos-pedalinhos do lago. Tudo era simples e perto, andava-se sem medo com os vizinhos, amigos e conhecidos. Para se ir ao Teatro José de Alencar, bastava dobrar na Duque de Caxias e pegar a General Sampaio, nada mais que dez minutos, ainda tendo a curiosidade de olhar a Oficina do Abdon, que consertava baterias de veículos e tinha um grande par de chifres na entrada. E por falar em Abdon, existia outra oficina, esta na rua Meton de Alencar, do Dr. Batérico que, apesar do nome, consertava velocímetros, tocava piano e era um grande mitômano, sendo inclusive chamado para contar suas estórias na Ceará Rádio Clube.
O Farias Brito, que era um só, ficava na esquina da Major Facundo com a avenida Duque de Caxias, a então “beira-mar” da cidade, pois lá aconteciam comícios políticos, desfiles militares de Sete de setembro, carnaval de rua com blocos, escolas de samba, maracatus e o “corso” dos automóveis e caminhões que vinham desde a avenida Dom Manuel.
Um dia, descobri que esse desfile do passado havia desaparecido e vi nas ruas de hoje, mulheres, homens e meninos arrastando seus medos entre nuvens de desalento, mas a criança que inda existe em mim, no entanto, lembra das pitangas nas cercas vivas da Praça do Carmo, dos canários e sabiás que meu pai alimentava no corredor aberto de nossa casa e encontra sentido na esperança.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/10/2007.

