EUCLYDES, O CEARÁ, OS SERTÕES E A TRAGÉDIA – JORNAL O ESTADO

Interessará aos raros leitores desta coluna, inserida em caderno social, saber ‘notícias de primeira’ do fim do século XIX e começo do século XX? Direi, em rápidas pinceladas, que amanhã, 15 de agosto, faz cem anos que Euclydes da Cunha morreu. Por enquanto, respondo que Euclydes era carioca e não gostava de cearenses. E conto: o primeiro a quem criticou, por escrito, foi Antonio Maciel, dito Conselheiro, tecendo-lhe uma imagem sombria, preconceituosa e até racista. O que Antônio fez? Mandou-se de Quixeramobim, -onde fazia de tudo, pois ensinava e trabalhava avulso – para os cafundós da Bahia por conta da prima e mulher Brazilina que lhe traíra. Já observará o atento leitor que Euclydes era escritor. Bingo. Depois, poderá indagar por qual razão ele não gostava do Antônio? Vamos lá: Euclydes fora cadete, tendo sido expulso por suas ideias republicanas, estudou engenharia, reintegrado como tenente e a mando da novíssima República Brasileira foi à Chorrochó, Bahia, às margens do Velho Chico, para cobrir a Guerra ou Campanha de Canudos, morticínio de milhares de indefesos. A guerra, com Exército e tudo, partira da premissa falsa de que um mero povoado fundado e liderado por Antônio – que congregava e aconselhava (daí o nome conselheiro) a todos com fé fanática -, ameaçava a Pátria republicana emergente. Euclydes, tísico que era, passou duas semanas entre tosses, conversas e anotações no local, chegando pouco antes do assassínio do Conselheiro, em 22 de setembro de 1897. Levou também, de volta ao Rio, a foto do Antônio morto, batida por Flávio de Barros, fotógrafo do Exército. (O incrível é como essa foto se assemelha com a do cadáver de Che Guevara) Euclydes foi e voltou sem dar um tiro. Tiro ele deu em Dilermando Assis, cadete, o jovem e bem-apessoado amante de Ana Emília, sua mulher. Aguardem, conto logo mais. Assim, Euclydes e Antônio, apesar das divergências sociais, tinham um ponto comum: sofreram a traição das suas mulheres. Mas, esse tiro só ocorreria muitos anos depois. Euclydes, intelectual que era, perdeu, em 1903, o concurso para professor de Lógica do Colégio Pedro II, no Rio, logo para outro cearense, Raimundo de Farias Brito. De pura inveja, ele disse: Farias Brito é um “pobre filósofo, cearense e anônimo, autor de um livro que ninguém leu”. A palavra cearense, reparem, é usada como pejorativo. Aí, os amigos de Euclydes, do grupo positivista “Jardim da Infância”, uma espécie de Clube do Bode de então, deram um jeitinho e Euclydes conseguiu ser nomeado professor. Pulei, de propósito, o fato de que as anotações dele feitas nas duas semanas em Canudos geraram, em fins de 1902, o seu famoso livro: “Os Sertões”, bem aceito, reeditado várias vezes, com venda de 10.000 exemplares. Era um número alto para um país com 18 milhões de habitantes, dos quais 95% da gente era analfabeta. Piorando da tuberculose, Euclydes foi admitido, ainda em 1903, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e na Academia Brasileira de Letras. Mas, a glória seria efêmera. Parece que o fantasma de Antônio Conselheiro rondava a sua vida. E tudo se maximizava em sua cabeça de deprimido. Em um domingo, 15 de agosto de 1909, armado de um revólver emprestado, calibre 22, partiu, manhã cedo, para a casa do amante de Ana, sua mulher, o tal Dilermando de Assis que, adiante-se, era bom em tiro ao alvo. Chegou, bateu à porta, foi entrando e atirando em Dilermando que revidou com arma mais forte e certeira, um 32, matando-o na hora. A história não termina aqui. A alma de Antônio Conselheiro continuou azucrinando a honra da família Cunha. Em 1916, Euclydes Filho, resolve vingar a morte de seu pai. Mais uma vez, Dilermando levou vantagem e o filho foi fazer companhia ao pai no cemitério. Então, Dilermando casou com a Ana, a viúva e mãe dos Euclydes assassinados. “Em sociedade de tudo se sabe”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/08/2009.

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