Na adolescência dirigi um clube de amigos. Esse clube tinha um jornal: “O Girafa”, que significava Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Saiu poucas vezes. Eu era o faz tudo: redator, noticiarista e distribuidor. Fiz o que pude.
A historiadora Valdelice Girão, do Instituto Histórico, foi uma das inspiradoras e talvez se lembre desse fato. Depois, já na UFC, fui presidente da Cooperativa Cultural dos Estudantes Universitários, sucedendo ao brilhante Manuel Aguiar de Arruda. Funcionava na Rua Senador Pompeu, perto da Faculdade de Direito, no antigo prédio do Diretório Central dos Estudantes. Lutei muito para conseguir livros, criar interesses dos colegas, editar um jornal, mas a colaboração era mínima. O Manuel Arruda é testemunha viva.
Tudo isso me vem à mente ao saber que o jornal O Estado completou 76 anos. Imaginemos como era Fortaleza em 1946, quando o Brasil acabara de sair da ditadura, o presidente era o Marechal Eurico Gaspar Dutra e tentava deixar de ser um país agrícola para começar a era da industrialização. Ainda sem favelas, que começaram a surgir nos anos 50, a capital cearense sombreada por fícus-benjamim tinha em torno de 200 mil habitantes, os americanos – que vieram com a 2a Guerra – haviam ido embora para tristeza de algumas “coca-colas”. A pavimentação, quando existia, era em pedra tosca e paralelepípedo, pouco esgoto e água encanada, os bondes elétricos trafegavam de forma precária em face da energia bruxuleante fornecida pela Light, tendo sido desativados no ano seguinte.
Mas Fortaleza não era pacata, politicamente falando. Em 1946, a ebulição democrática mostrava isso. Foram três prefeitos nesse ano: Oscar Barbosa, Romeu Martins e Clóvis Matos. Intrigas.
A Ceará Rádio Clube imperava na radiofonia, mas no campo jornalístico havia muitos jornais. Correio do Ceará, Unitário, O POVO, O Democrata e O Nordeste dividiam o reduzido número de leitores citadinos. Pois foi nesse cadinho que surgiu o jornal O Estado, independente, tal como ainda hoje o é, fundado por José Martins Rodrigues – dirigente do Partido Social Democrático- PSD, opositor direto da União Democrática Nacional-UDN – advogado, professor universitário e um dos políticos mais respeitados da história política brasileira do século passado, ocupando relevantes cargos públicos, inclusive o Ministério da Justiça.
A história do jornal O Estado já foi contada por jornalistas, escritores e memorialistas. O que apenas tento dizer é que O Estado foi um dos dois jornais que superaram, desde então, todas as intempéries políticas, crises econômicas e sociais, que vivemos nestes três quartos de século.
No começo desse escrito, frisei como é difícil fazer funcionar um mero jornal de jovens e dirigir uma cooperativa cultural. Imagine um jornal de verdade. Aglutinar, por 76 anos, jornalistas, colaboradores, redatores, clientes, oficinas, distribuição e estar nas bancas todas as manhãs do dia seguinte.
O Estado teve várias fases, mas sua consolidação final se deve a uma luta renhida do advogado caririense Venelouis Xavier Pereira, que se arvorou em empresário jornalístico em um meio absolutamente hostil. Sofreu e resistiu. Hoje, seus filhos, capitaneados por Ricardo Palhano, com a presença materna de D. Wanda, o dirigem com equilíbrio, integridade, consequência e livre, como sonhava Venelouis. Parabéns a todos.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/09/2012.

