FELICIDADE E VIDA – Diário do Nordeste

Esta semana encontrei uma amarfanhada revista Época de maio do ano passado. E por acaso, pus-me a folheá-la. E não é que encontrei um artigo sobre felicidade? Este substantivo feminino com origem no Latim, língua que dizem estar morta, mas preenche vazios dos que escrevem e ainda dá nome a astros e plantas medicinais, entre outros. Desde a antiga Roma, o poeta Públio Siro dizia: “Não é feliz quem não se considera como tal”. Lá perto, na Grécia antiga, Ésquilo, um trágico, arrematava: “Apenas quem terminou sua vida sem sofrimento pode considerar-se feliz”. Horácio, também poeta latino, acreditava que “não existe felicidade completa”. John Stuart Mill, filósofo e economista inglês do século 19, sugeria: “Perguntai a vós mesmos se sois felizes e deixareis de sê-lo”. No século passado, Ezra Pound, poeta americano, criticava: “Felicidade: circulação apropriada de lubrificantes endócrinos”. Voltando ao artigo: ele afirma que a Dinamarca é considerada o país mais feliz do mundo. Em 2006, pesquisadores da Universidade Leicester, da Grã-Bretanha, acreditaram ter descoberto a fórmula de um “mapa mundial de felicidade” que trazia como pressupostos: saúde e educação pública de qualidade e o grau de satisfação da população com o futuro de seu país. A Dinamarca saiu vencedora por desenvolvida, alegre e onde a maioria das pessoas é irônica, como o era o seu falecido filósofo Soren Kierkegard. A razão da felicidade dinamarquesa é justificada pela absoluta liberdade de expressão, cidades seguras, a ironia ou a capacidade de dizer o contrário do que se pensa. E o Brasil, perguntam vocês? Não ficou entre os 20 primeiros classificados, mesmo com futebol, BBB, propaganda de cerveja e roda de samba. A propósito, outro dia a seguinte afirmação de Cristóvam Buarque gerou polêmica: “O Brasil ficou entre 8 melhores do mundo no futebol e entristeceu. Mas é 85º em educação e por isso não há tristeza”. Queremos parecer o que não somos, não nos contentamos com o que somos ou temos. Ou com o que importa. Somos perdedores ou vencedores, dependendo dos embates e batalhas, esquecendo, como queria André Malraux que a vida não vale nada, mas que nada vale uma vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2011.

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