O que falar sobre Fidel que já não tenha sido dito? Ditador? Revolucionário? Herói? Mito? Tudo já foi escrito em artigos, teses, livros, jornais, revistas, TV e filmes. O fato é que Fidel Alejandro Castro Ruz, 81 anos, deixou o poder efetivo que manteve por 49 anos sobre a Cuba que tomou de Fulgêncio Baptista. Sua luta hoje parece ser permanecer vivo, dar dignidade ao corpo alquebrado por doença a consumir todas as energias vitais. Não mais fará discursos com horas de duração, tampouco vestirá a sua farda de “Comandante”. Não usará mais os velhos aviões russos em que, garboso, viajava pelo mundo e aparecia na escada como estadista. O homem Fidel sente-se finito, cioso do que lhe resta e já não adiantará mais que assessores revisem – ou escrevam – e publiquem pronunciamentos seus no Granma, o diário oficial de Cuba. Sua voz poderá não ter vez no corpo doente. Talvez nada mais importe para quem não pode fumar os seus charutos, soltar baforadas e desaforos em direção aos Estados Unidos. Suas botas duras estão substituídas por chinelos moles. Seus álbuns de fotos restarão guardados em um velho armário e poucos terão acesso a eles. Lembrará ele do jovem advogado Fidel a descer de Sierra Maestra com seus companheiros e saberá que cada passada sua fechava um ciclo de Cuba e criava outro. Na planície, em La Habana, sonhou com a liberdade e tentou, a seu modo, escrevê-la de outra forma. Mas não há adjetivos para ela. Ou existe ou não acontece. E agora na lucidez que lhe é permitida pelos remédios que minoram suas dores lembrará certamente de seus tempos mexicanos quando cunhou a frase: “Pátria ou morte”. E terá a certeza de que Cuba sobreviverá a ele e nas casas de Havana, Santiago de Cuba e Trinidad jovens e velhos como ele estarão fumando e tomando rum, olhos e ouvidos nas notícias. Fidel talvez não queira mais falar com Chávez, tampouco responderá diretamente as mensagens que receberá ou sequer ouvirá o que prometem fazer por Cuba ou em Cuba os candidatos à eleição presidencial americana. Mas, mesmo se dizendo ateu, talvez agradeça as muitas rezas que mulheres cubanas ainda farão por ele.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2008.

