Vida de herdeiro é difícil. Imaginem que o filho do controlador de uma das maiores multinacionais, a Johnson&Johnson, talvez por falta do que fazer, resolveu inventar um filme-documentário. E escolheu como tema a desigualdade. Ele entende que há um desafio a ser resolvido pelos Estados Unidos, pois apenas 1% de sua população detém metade da riqueza do país. E deu ao filme, de 80 minutos, o título “Um por cento” (One per cent). O filme, que já foi apresentado em festival, é repleto de entrevistas com ricas personalidades como Robert Reich, Bill Gates e o próprio pai do cineasta. O economista Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia, também convidado, abandonou, irritado, as filmagens, acusando o cineasta de ser socialista. O certo é que o ‘leit motif’do filme é mostrar como vivem e falam os que não sofrem nenhum tipo de restrições e nada lhes falta. Têm dinheiro, compram. O filme já ganhou dois prêmios Emmy e o caso é relatado em Vida Americana pela The Information Company, do brasileiro Pedro Costa.
O lance, que o cineasta Jamie Johnson ouviu de seu pai, irritado, é o seguinte: “Por que você está falando sobre dinheiro? Se alguém perguntar a você sobre isto, diga que não é verdade, diga que não temos parentesco com a família que fundou a empresa”. E ele, o cineasta, retruca: “A fortuna de minha família está aumentando mais rápido do que nunca. Somos parte de um pequeno número de famílias que tem a maioria da renda nacional, mas ter-se tanto na mão de tão poucos não pode ser bom para a América”.
Essa aflição de rico mostra que os limites do ter foram ultrapassados e isso, seguramente, confunde as cabeças dos herdeiros coroados que pouco ou nada têm a fazer, a não ser esperar pela morte dos seus pais ou, sendo menos severos, receber, em vida, polpudos adiantamentos que lhes permitam ocupar o ócio, inclusive fazendo filmes denunciando a riqueza de suas famílias. Sobre o assunto, é bom ouvir o que dizia Andrew Carnegie, que nasceu pobre na Escócia, chegou aos Estados Unidos com 13 anos e – com uma vida de muita luta – tornou-se milionário do aço e petróleo, além de ser um grande filantropo: “Parece estranho, mas é verdade: as pessoas raramente tiram proveito do dinheiro que não ganharam com seu próprio esforço. A utilidade do dinheiro consiste na maneira como o empregamos, e não na sua mera posse. De um modo geral, a pessoa que ganha o seu próprio dinheiro adquire, juntamente com ele, parte do conhecimento necessário a seu inteligente aproveitamento”. Ou seria melhor ouvir o que diz Warren Buffet, um dos três homens mais ricos do mundo: “Tudo o que vem fácil, também se perde com muita rapidez. Por tal razão só vou deixar 15% do meu patrimônio para os meus descendentes”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/03/2008.

