De repente, um grupo heterogêneo de pessoas, sem nenhuma razão aparente resolve estudar filosofia. São, na maioria, empresários e alguns professores e estudiosos do assunto, sob a coordenação de um doutor em filosofia. A propósito, é bom ler o que disse Michel Foucault sobre a busca de conhecimento: ”Não há relação de poder sem a constituição correlativa de um campo de conhecimento, como também não há nenhum conhecimento que não pressuponha e constitua ao mesmo tempo relações de poder”.
Como não havia um nivelamento entre todos os participantes, o professor optou por uma visão abrangente da história da filosofia e de suas principais figuras. Cada sessão tem a duração mínima de duas horas, uma vez por semana. Já estamos nisso há mais de dois meses e, passo a passo, vamos chegando à modernidade.
Didático, preparado e com uma capacidade incrível de se recuperar após perguntas de toda ordem, o professor vai mostrando aos que nunca tinham estudado filosofia e aos que imaginavam saber alguma coisa, as diversas concepções acerca do ser, dos seres e dos papéis do homem no universo dentro das variáveis espaço e tempo.
Imagino que se criou no meio do grupo – uma espécie de babel de formações pragmáticas e acadêmicas – a consciência da necessidade de uma atitude crítica, a partir de reflexões. Já se observa, como produto dessas reflexões, um amadurecimento do raciocínio lógico e de especulações, talvez até inconscientes, sobre a moral, a ética e a semiologia com sua linguagem dos signos.
Muitas vezes, após as aulas, alguns ficam confusos e sentem o peso das informações recebidas, mesmo com a ressalva da bibliografia, cuidadosamente preparada para neófitos. Pois não é que ä frequência tem aumentado e muitos já não se sentem acanhados em associar os seus raciocínios à lógica das escolas filosóficas. Ora, se filosofia, do ponto de vista etimológico, significa “amor à sabedoria”, os que estão tateando têm consciência de suas limitações e o fazem na certeza de que precisam refletir sobre o pensar e o agir humanos. Essas atitudes reflexivas vão sendo agregadas e servirão, provavelmente, para balizar suas condutas.
Certamente, após esse curso, não serão conferidos diplomas e ninguém se sentirá um novo filósofo, mas, por certo, a formulação de seus pensamentos práticos ou teóricos obedecerá, mesmo sem perceberem, a novos critérios, ideias e juízos de valor, a partir da perplexidade, base primeira da filosofia, segundo Aristóteles.
Durante algum tempo, considerando que tudo não venha a ser absorvido e ficar de todo sedimentado, pensarão no que ouviram sobre a filosofia grega, os filósofos cristãos, a reforma, o iluminismo, a modernidade e nessa coisa meio louca que é o pós-modernismo, a partir do niilismo que nos conduziu a este mundo de hoje, com poucas crenças e muitas desavenças.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/09/1999.

