FIM DE JUNHO, FOUCAULT, 13 DE JULHO E ELEIÇÕES – Jornal O Estado

Neste junho já quase entregue a julho, que dirá, no dia 13, quem será o país campeão no mundo do futebol, ecoa em mim a análise de Vladimir Safatle, professor de filosofia da Universidade de São Paulo, esquerdista assumido, no artigo “A era da suspeita” (Folha, 24.06.2014). Ele escreveu, entre outros, o livro “A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu nome”, em 2012.
Todos nós, os que escrevem, os que leem, os que não abrem um livro, os que governam, os governados e os candidatos, estamos sob suspeita eterna. Para Safatle, Michel Foucault – filósofo francês morto há 30 anos- “conseguiu produzir dois feitos notáveis: complexificar nossa compreensão a respeito dos mecanismos de funcionamento do poder, e injetar uma desconfiança profunda a respeito do pretenso realismo de conceitos e práticas científicas, em especial no campo das ciências humanas e das práticas clínicas”.
Mais à frente, Safatle escreve: “Foi Foucault quem mostrou, de maneira mais sistemática, que nada entendemos do poder enquanto o pensarmos a partir da temática da dominação das vontades, ou seja, o exercício do poder como sobreposição de uma vontade a outra”.
Além do futebol e de Foucault, há um jogo mais complexo sendo tentado nos campos experimentados da política nua e crua que vai decidir, em outubro, quem dirigirá o Brasil nos próximos quatro anos. Estarão Dilma, Aécio e Eduardo fazendo coligações em função do bem do Estado ou pela mera necessidade de manter/atingir o poder?
Essa, embora não dita, parece ser a tal suspeita, da era em que vivemos. Safatle, talvez de forma reducionista, conclui, a partir de Foucault, que “dessa forma, nasce uma experiência filosófica na qual epistemologia, ética e teoria social caminham de forma compacta”.
Sei não, mas penso que os sensores dos faros políticos de Lula; os do pragmatismo de sobrevivência do PMDB; os dos “sonháticos” de Marina Silva associada, forçosamente, ao experimentalismo de Eduardo Campos; os da ressuscitação tancredista- o Presidente que foi, sem ser – café-com-leite de Aécio Neves, não são uma experiência filosófica, mas a prática política consagrada, quiçá uma “teoria social”, que refinou, talvez até de forma inconsciente, o pensamento de Maquiavel, passou longe de Foucault e está associado a todas as formas concebíveis de marketing político, sem a basilar preocupação com a filosofia, a epistemologia e a ética.
Concordo com a suspeita, mas não sei qual a saída filosófica ou até psicanalítica, seja ela lacaniana, luliana, renaniana, sarneyana, pezaniana, alckiminiana, dilmiana, aeciana, eduardiana ou até malufiana. A “práxis” política brasileira faz o ministro Gilberto Carvalho dialogar com membros dos “black blocs” sem que a mídia soubesse, e só depois, ser o fato revelado pelo próprio Carvalho ao dizer que tudo deu em nada.
O que virá a ser a partir de 14 de julho, a troca da torcida – ufanista ou desapontada – pela militância genuína, engajada, condicionada ou remunerada? Estamos no limiar de uma verdade esportiva que sairá dos campos com dimensões fixas, jogadores afinados, técnicos atentos, cenários ricos, programação dogmática, lucros auferidos, segurança máxima e públicos de etnias, posturas, desejos e danças diferentes.
No dia 14 de julho, uma segunda-feira que tentará ser não uma queda da Bastilha à brasileira, mas o ponto dentro da curva, o caminho do Oiapoque ao Chuí, do bolsa-família aos jardins paulistas, levando-nos a somar tudo o já ganho e festejado nos últimos vinte anos, ao que nos falta, desde sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/06/2014

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