FOFOCA E PRIVACIDADE

Pesquisas revelam que o Brasil é o país da fofoca. Fortaleza seria a cidade-rainha da fofoca. É por estas e por outras, que cada pessoa deve preservar mais a sua intimidade. Assim, seja você como for, não permita que invadam a sua privacidade, lute para afastar os que se adonam de você de forma explícita ou não. Não existem só os meios tradicionais de invasão que você conhece (os que se fazem de íntimos, os amigos de todo mundo e de ninguém, os bisbilhoteiros contumazes, pessoas que você não vê há séculos e dão as caras, parentes com quem não convive e tecem redes de intriga etc). Não dê trela a quem, por não ter satisfação com a própria vida, vive de bisbilhotar e distorcer as dos outros.
Hoje, neste mundo em que a informática e a comunicação têm um lugar destacado, há outras invasões menos sentidas, mas também danosas. Por exemplo, há alguns anos foram criadas as mailing-lists ou listas de correspondência. Se você compra em loja, se tem um ou mais cartões de crédito, faz parte de alguma entidade ou clube, assina revistas etc, certamente integrará as famigeradas mailing-lists e receberá cartas, cartões, convites, propagandas e outros que tais. Hoje, no Brasil, há empresas especializadas em vender listas de correspondência e faturam alto com o nosso nome.
Se você utiliza computador, tem um e-mail e cai na tolice de responder a alguém que lhe manda correntes de orações, piadinhas, protestos contra políticos etc., sem dúvida entrará em muitas listas de ´spam´, que é o lixo da Internet. O spam é, em outras palavras, tudo aquilo que você recebe sem pedir e querer e que lhe dá trabalho de, literalmente, colocar na lixeira
Outra invasão é aquela feita através do seu telefone fixo ou celular. Há pessoas que adoram números de telefones de amigos ou de gente importante e têm o desplante de passarem para frente, o que alguém lhe confiou ou conseguiu, por mera bisbilhotice. Outros, sem perguntar se você está ocupado, ligam dizendo que querem trocar duas palavras e passam um tempo maior que a sua paciência permite. Isso tudo é quebra de um tácito contrato social de privacidade/civilidade que lhe deixa vulnerável a pessoas que violam a intimidade a que todos têm direito, especialmente fora do exercício de uma função pública. Ouça gente que sabe que a sua imagem (fotos, filmagens etc) não pode ser utilizada sem a sua autorização e se deixam embevecer pelo flash que espoca ou o aparato de uma filmagem.
É claro que não podemos viver como Howard Hugues, um excêntrico bilionário americano que se isolou do mundo e acabou morrendo sozinho. Você deve estar atento à infiltração contínua da sua privacidade e lutar para que fantasias, interesses, fantasmas e fofocas não sejam criados a partir da imaginação dos que, costumam ter a inveja como prumo e o desatino como rumo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2003.

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