FORA DO AR – Jornal O Estado

Estou desligando a minha televisão. Cansei da patriotada boba nas Olimpíadas de Londres. Fizemos pouco para o muito que foi gasto pelo Governo, pela Caixa, Banco do Brasil e quejandos. Vou passar uns dias por aí sem ler notícias da Terra Brasilis. Mouco estarei para a retórica estulta dos que falam aos microfones e câmeras das estações de televisão instaladas no Olimpo do Plano Piloto.
Levo livros, inclusive um para reler. “De fato e de Ficção”, do recentemente (31.07.2012) falecido Gore Vidal, segundo ele próprio, o mais importante membro da família Gore. Ele mexe, nesse livro, com figuras carimbadas da literatura americana e com políticos, democratas e republicanos. Era um erudito completo. Escrevia romances, sabia tudo de política e ganhava dinheiro fazendo roteiros de cinema, sua paixão maior. Em seu livro biográfico “Ponto a Ponto da Navegação”, diz: “Como agora me aproximo, graciosamente espero, da porta da saída, me ocorre que a única coisa de que gostei mesmo de fazer foi ir ao cinema”.
Fico com saudade do Carlos Heitor Cony na Folha de SP, que recebo todas as tardes. No dia 10, sexta passada, ele escreveu a crônica “O imenso Jorge”. Leve, solta e, ao mesmo tempo, erudita e profunda sobre os 100 anos de Jorge Amado, comemorado naquela data. Leia um pouco: “Jorge Amado conseguiu o absurdo de ser cético e de ser crente. Só na Bahia podia nascer um sujeito assim. Por isso mesmo ele tinha um gosto de azeite e de sono espreguiçado, de cafuné e de mulata tombada nos fundos da cozinha. Espiou o mundo com o olho treinado nas fechaduras da vida: compreendeu tudo. Leitores que ele teve em todo o mundo não sabem o que perderam: a pessoa humana que só deu a conhecer uma parte de si mesma. Uma parte que constitui um dos maiores todos da literatura moderna”.
Não vou sentir falta do horário eleitoral. Todos estarão maquiados na face e nas palavras ensaiadas que deixam transparecer o despreparo de alguns. Tampouco vou ler sobre pesquisas qualitativas e quantitativas contratadas por entidades do sistema S que usam o dinheiro dos empregados e empregadores no compadrio com quaisquer governos.
Saio do trânsito maluco nos cruzamentos, com assalariados portando bandeiras de políticos em quem não votam, embaraçando a nossa visão. Tchau para carros, coletivos, caminhões e motocicletas que fazem, todos os dias, a reapresentação do Globo da Morte dos circos da minha infância. Apago os flanelinhas de todas as quadras, loteadores dos espaços urbanos e senhores dos nossos trocados.
Vou sem muita roupa. Dispo-me da fantasia de pensar estar sendo observado por olhos maledicentes que nos querem ao contrário do que somos ou o contrário do que eles pensam ser, sem mais o que fazer. Volto logo, espero. E encontrarei tudo como dantes. Que jeito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/08/2012

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