FUMO E VIDA – Diário do Nordeste

Hoje é o Dia Internacional Sem Tabaco (fumo). Ser contra é muito fácil. Basta criticar ou discriminar quem fuma. A história é bem mais complexa e merece reflexão coletiva, inclusive das instituições e famílias. Desde 1987 a OMS – Organização Mundial da Saúde, estabeleceu o dia 31 de maio como data anual para, de forma explícita e objetiva, conscientizar a sociedade sobre os males e consequências do fumo. As estatísticas ficam para institutos de pesquisa e órgãos governamentais de saúde, mas sabemos o quanto o cigarro pode abreviar a vida de uma pessoa: doenças e morte evitáveis. Além de abreviar, pode ainda piorar a sua qualidade nos anos derradeiros. Todos nascemos para morrer, vivemos agora no intervalo entre o nascimento e a morte, mas o que fazemos com o nosso corpo e a mente faz diferença, para mais ou para menos. Um caso concreto: meu pai fumava muito desde a adolescência. Foi obrigado a parar aos 63, por conta dos problemas decorrentes do uso imoderado do cigarro. Viveu mais sete anos, após o fumo, mas ainda foi acometido de infarto fatal por conta das múltiplas sequelas venosas e arteriais. O vício é de tal modo difícil de curar. Vejam, irmãos meus, sabedores das aflições e da causa da morte do nosso pai, ainda fumam. De minha parte, não resisti ao enjoo ao experimentar – na adolescência – o cigarro e tive sorte. Tenho amigos sabedores do terreno minado e teimam em continuar a pitar. Há uma dependência química por trás do simples ato de fumar. Ela vai se formando dia a dia e chega montando morada com alicerces fortes. Controversas questões judiciais correm em tribunais de todo o mundo mostrando a batalha social e econômica por trás dos interesses de grandes corporações, pagando os mais altos impostos aos governos por serem produtores de cigarro e as famílias com criaturas perdidas por conta do fumo. Hoje, há uma consciência coletiva sobre o problema. Há leis duras e só se pode fumar em ambientes abertos. Grupos se formam para descobrir soluções médicas, pessoais e caminhos alternativos ao vício. Mas, “não ter vícios não acrescenta nada à virtude” dizia o poeta espanhol Antonio Machado. Há, todavia, vícios nos privando de outros prazeres, não necessariamente virtudes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/05/2009

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