GANHAR POR ESCREVER – Jornal O Estado

“Escrever é uma forma de falar sem ser interrompido”. Jules Renard, escritor francês, 1864-1910.
Intelectual de nível, como Maria Beatriz Rosário Alcântara; educador e gestor como José Freire Neto; jornalistas como Paulo Tadeu Sampaio e Ricardo Moura; e produtores culturais como Silas Falcão e Joanice Sampaio formavam a mais recente Comissão Julgadora de concursos culturais que promovo. Há 14 anos venho insistindo em realizar concursos culturais. Fazemos chamadas pelas mídias sociais, utilizamos cartazes e publicidade paga. O que pedimos é, no meu entendimento, pouco. Basta que a pessoa escreva sobre um tema ou construa frases com determinado número de palavras. Não paga nada e pode ganhar bons prêmios. Agora, neste agosto findante, realizamos mais um concurso com prêmios valiosos, como computadores, celulares, utensílios domésticos de bom preço, vales de até 800 reais para compras.
E o faço por ver, todos os dias, passando por um ambiente fechado, devidamente sinalizado, milhares de pessoas que não cuidam de olhar para os marcos expostos, os letreiros, as artes nas paredes, livros nas estantes e jornais nas mesas. Que razões são essas que levam a maioria das pessoas a não prender sua atenção e seu olhar a fatos interessantes, mensagens, promoções, diversões, exposições, cantores, instalações, poetas, brincantes e animadores culturais? Daí, para torná-las mais atentas, procuro pensar e fazer esses concursos culturais, pela internet e em meio físico, de modo a estimular o uso da visão, como sentido, e o ato de escrever, como prática.
Damos um prazo de uma semana para que se inscrevam, pagamos orientadoras para ajudá-las com informações, mas há um retorno que quase nunca chega a um milhar. Já vi pessoas perguntando por um determinado lugar exato defronte a ele. Algumas outras parecem alheias ao seu redor ou, quiçá, receosas em olhar, em descobrir o não comum, a se auto desafiarem a explorar algo original, não o já constante de sua agenda ou prescritas por sua formação profissional, ideologia, crença ou costume.
Posso estar errado. Gostaria que as ideias contrárias às ora expressadas tomassem forma e fossem enviadas ao e-mail josileneslima@yahoo.com.br ou remetidas para a rua do Rosário,01, centro, Fortaleza, Ceará. Saber se estamos na rota certa parece ser não só preocupação deste escriba como de muitos, os que não querem enxergar o visível, o diante dos seus próprios olhos. Se o fazem por enfado ou receio, seria bom ter ciência. As mensagens talvez não sejam captadas ou entendidas. É a velha história do meio e da mensagem, a que se referia Marshall McLuhan no terceiro quarto do século passado. É sempre bom lembrar o que dizia o autor Mário Quintana: “Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passá-la a limpo”. Assim, abra os olhos e explore os demais sentidos. A vida cruza não só pela visão, mas pela fragrância das coisas, o tocar em algo reprimido, ouvir o silêncio e a música do barulho, enfim estar desperto, disposto e audaz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/08/2013.

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