A morte do documentarista Eduardo Coutinho é tragédia que poderia ter sido por ele filmada. O assassino é o próprio filho que, tresloucado, esfaqueou pai e mãe.
Os documentaristas, quase sempre, procuram o surreal e a filma com fingido ou natural distanciamento. Li as palavras de Fernando Meirelles, Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos sobre o grande documentarista que se foi de forma brutal. O fato de ter acontecido no Rio, bairro da Lagoa, no próprio apartamento, mostra que o infortúnio não é privilégio do Ceará. Senti a ausência da fala de José Padilha, o diretor festejado do novo “Robocop”.
Padilha começou documentarista, fez ” Ônibus 174″ e outros. Explico-me: com ajuda federal, através da Caixa, Petrobras, Ancine e do próprio Governo do Ceará, Padilha escreveu o roteiro, junto com Felipe Lacerda, e dirigiu, em 2009, o documentário “Garapa” com foco em três histórias de famílias miseráveis da capital e do interior cearense.
O “sociologismo” usado, a descrição da “verdade”, a filmografia em preto e branco e a fala- ensaiada – de pessoas inocentes para dizer de suas fomes, não engrandecem Padilha.O ufanismo com a sua internacionalização não o redime de usar recursos públicos para filmar a miséria e querer alertar que o “Bolsa Família” não resolve a fome.
É importante, neste 2014, ficar claro o uso continuado dos humildes para a fama de alguns jornais, cineastas, fotógrafos e políticos. Iludem e dissimulam. São cruéis ao mostrar desgraças alheias. São piores que as ralas garapas. Reles beneficiários das “revelações”.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/02/2014

