Hoje, sexta-feira, dia 20, estarei lançando o livro “Gente que Conta”. Será na Oboé, sete da noite. Você é meu convidado. Não haverá discursos. Conversas informais, regadas a vinho. Devo dizer que gosto de ler, ver e ouvir entrevistas. Daí, resolvi ser entrevistador. Decidi, de princípio, que entrevistaria pessoas notórias, pela singularidade de suas vidas e êxito alcançados. Em Gente que Conta cada entrevistado é universo singular e especial. Todos são cearenses de vida ou de coração. São múltiplos nos fazeres, falares e saberes. Eles têm essência e ritmo. São capazes, ciosos da sua imagem, falam sobre suas vidas, a troco de nada.
Alguns desvendaram faces sem maquiagem. Outros usaram sutilezas e personas. Cada ser é mistério e tem compasso próprio. As entrevistas trazem um pouco da história vivida do Ceará no último quarto do século passado e um pouco deste. A linguagem é a falada. Cada um cuidou da sua. Falam livres, abrem as comportas de suas lembranças. Nenhuma censura, mesmo em repetições, empolgadas ou não. Procurei a isenção possível, embora houvesse que pesquisar e me familiarizar com suas estórias pessoais.
O livro foi feito com juízo crítico, mas pode conter falhas ou omissões. Procurei não fazer perguntas incoerentes, arbitrárias, dúbias, desarticuladas ou tendenciosas. Por outro lado, tive a intenção deliberada de ir desvendando o espírito, a lógica, a cultura e o comportamento de cada um. São quinze os homens entrevistados. E somente uma mulher consta do livro.
O poeta espanhol Garcia Lorca falava: “A vida não é sonho. Acorda!”. Como demorei a montar o livro –sete anos – três entrevistados já faleceram: José Raymundo Costa, Marcelo Linhares e José Alcides Pinto. Lamento as ausências físicas deles. Esses fatos não mudaram as importâncias de suas entrevistas. José Raymundo Costa foi referência na área jornalística, tendo sido executivo de estreita confiança de seu jornal. Já avô, formou-se, por capricho, em Comunicação. Observador atento do comportamento de seus pares e da sociedade, virava criança ao torcer pelo seu clube, o “Fortaleza”. Marcelo Linhares, exemplo da ascensão do jovem bancário – com passagem pela administração pública – à vida política local e nacional, com quatro mandatos consecutivos de deputado federal, assessorou ministérios e aquietou-se como biógrafo e historiador. José Alcides Pinto, escritor, não se enquadra em padrões ou definições e teve, como autor, uma profícua atividade: poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta e cronista. Puro e maldito em sua criação, simples e ousado no seu saber difuso. Foi escritor-fantasma (ghost-writer) para muitos. Por amizade ou cobres. Aqui e alhures, em paralela produção à sua. Os que se seguem, em ordem alfabética. Ana Miranda, escritora premiada e consagrada nacionalmente. Após longa permanência em Brasília, Rio e São Paulo, voltou ao Ceará largado na infância para reatar laços e produzir mais. Artur Eduardo Benevides, representante da geração de 1945, do grupo Clã, referência na historiografia da poesia cearense. Chico Anysio, o maior humorista brasileiro de todos os tempos. Cineasta, compositor, escritor e pintor de múltiplas tintas. Elano Paula, o mais inteligente dos filhos do Cel. Oliveira Paula, pai do Chico Anysio. Ernando Uchoa Lima, advogado criminalista, ex-presidente nacional da OAB nacional, professor e político. José Júlio Cavalcante, ex-radialista, é o retrato da velha radiofonia cearense. Militava na esquerda, sem esquecer de ser representante comercial com bons relacionamentos. José Macedo, empresário de proa, líder de grupo de indústrias e chefe de família que o ajudou a consolidar sua posição no mercado nacional de trigo. Incursionou na política e de sua aura se destaca o grande ser humano. Juarez Leitão, poeta, professor, político e orador. Descobriu, na maturidade, a capacidade de escrever biografias de personagens familiares, a partir da contextualização, pesquisas e depoimentos de parentes e amigos. Lúcio Alcântara, médico, professor universitário e político com sólida formação cultural. Foi secretário de Estado, prefeito, governador, deputado federal e senador. Lúcio Brasileiro, colunista social mais longevo do Brasil. Natureza especial e memória ímpar. Fez-se autor e personagem de seus ‘gossips’. Edita lista bianuais da sociedade e livros, recontando estórias e se isola entre as praias de Cumbuco e Ibiza. Lustosa da Costa, auto exilado em Brasília. Visitante mensal da biblioteca sobralense que leva o seu nome. É arquivo vivo do jornalismo do Ceará, a partir dos anos sessenta. Ubiratan Aguiar, longo percurso de vida pública. No ponto A é o jovem vereador de Fortaleza. No ponto Z é o Ministro do Tribunal de Contas da União. Entre o A e o Z fulgurou a política e, agora, ancora-se em versos musicados.
Em resumo, O livro tem 16 portas. Uma chave mestra: o leitor. Sou apenas o perguntador. Espero você hoje à noite, na Oboé na rua Maria Tomásia, 531.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/08/2010.

