GONZAGA MOTA:AO VENTO QUE FICA – Jornal O Estado

Luiz Gonzaga Fonseca Mota era economista, técnico em desenvolvimento econômico da então quase universidade – que foi o Banco do Nordeste – e Professor da UFC, quando convidado para ser Secretário de Planejamento do Estado. Depois, como do conhecimento dos que lidam com a história contemporânea, em eleição direta, tornou-se Governador do o Ceará. Em sequência, por três mandatos, foi Deputado Federal. Não é sobre o político Gonzaga Mota que vamos arrazoar. Esse mister precisa de distanciamento crítico e tempo, o que ainda não aconteceu.
O que tenho às mãos é um novo livro de Gonzaga Mota, “Ao Vento: Poemas”. Finalizado em branco e preto, com arguto prefácio do intelectual e jornalista Cid Sabóia de Carvalho e capa de Hermínio Castelo Branco, o Mino. Relembro que Gonzaga, Mino e eu, fomos contemporâneos, amigos das antigas, nascidos nos tempos em que Vargas mandava no Brasil enquanto uma guerra mundial – onde milhões de pessoas foram mortas pela insânia coletiva – findava e dividia a Terra em sistema de ideias. O que era mal para uns, era Bem para outros. E vice-versa.
Hoje, 2012, Vargas é memória longínqua, o mundo está sem eixo, o economista-técnico, o professor-planejador, o aluno bem olhado na pós-graduação por Mario Henrique Simonsen, o jovem político de sucesso festejado pelos áulicos que sempre circundam os poderes, quaisquer que sejam eles, se vê, maduro e longe da astúcia devastadora. Tem escaras subjetivas – e inertes – causadas pelos que o incensavam com afagos e tapinhas às costas, ditas amigas. Preenchido de fé, cercado de estreita e verdadeira benquerença familiar, desde a mulher amada, filhos e netos, veste as sandálias dos simples escribas de província e deixa o coração transbordar de sentimentos, seja em prosa e, agora, em versos.
Em “Ao Vento” o leitor cuidadoso viajará na face madura/criança do homem que se vê poeta estreante e não tem receio de falar do que o move e o mundo. Na auto-apresentação, ele escreve: “Acredito ser o filósofo e o poeta figuras bastante parecidas, pois ambos procuram entender as inquietações da vida”. E enumera quais são elas: a religião e a ciência; o ser e o não ser; a gratidão e a ingratidão; a esperança e a desesperança; o certo e o errado; o amor e o ódio; o bem e o mal; a alegria e a tristeza; o eterno e o efêmero; o começo e o fim.
E “Ao Vento” se desfolhará, página por página, aos seus leitores e, especialmente, aqueles entes queridos do autor, os que, afinal, valem a pena e permanecem nos transbordos das estações da vida. Hoje, o menino de classe média, bem educado por família ciosa de que só a educação, os princípios e o conhecimento constroem, remexe na sua cornucópia de lembranças e, em metáforas, separa o essencial do oba-oba que pulula, como doidivanas, no circuito do poder. E reflete: “Levar a vida tão a sério/às vezes, tenho dúvidas/Talvez sejam instantes de melancolia/ motivados por desilusões do dia-a-dia”. Na contracapa do seu livro, Gonzaga cita Fernando Pessoa (Sopra o Vento): “… Dos ramos que ali caíram/Sei que só há mágoas e dores/Destinadas a não ser/Mais que um desfolhar de flores”.
Ao Vento, não. À Vida. E longa.

João Soares Neto,
escritor
(Publicado no Jornal O Estado, 13 de janeiro de 2012, www.joaosoaresneto.com.br e www.amigosdolivro.com.br)
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/01/2012.

Sem categoria