Quando nascemos o pacote já vem pronto. Temos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Tudo isso junto vai formando o tempo de viver. Essa vida que recebemos sem querer ou saber e, só a partir de um determinado instante, muito depois, dela tomamos vera consciência. E isso acontece, por exemplo, quando se completa 40 anos de formatura em Direito. Nesse instante é que nos perguntamos: E agora? Agora é aquele momento em que se para e recebe um sacolejo, procurando respostas que não sabemos ou a pouca audácia nos impede de descobrir.
Esta época do ano não é só de justas comemorações, nem apenas o tempo de se fazer listas de presentes, comer, beber ou programar o que fazer com as sobras do salário. Ela é um tempo em que muitos ficam a pensar nos sonhos que imaginou, realizou ou os perdeu pelo caminho. Nos desejos jogados para escanteio em nome da preservação de relações, interesses ou medos. É a procura, quem sabe, daquilo que deveria ter sido feito e não foi.
Isso bate mesmo. Bate para o Papa, o Rei da Espanha, o Zé da mercearia, o Dirceu, a Marília, o Bush, enfim, sobra para todos os que estão mexendo com o exercício de viver. E bate porque sabemos que para tudo há começo, meio e fim. E quando chegamos ao que se acredita seja o meio de tudo isso, aí a vontade vem de roldão e nos fustiga a coragem, mexe com as entranhas e estranhos juízos passam pela cabeça.
É o tempo de remexer nos guardados existenciais, os que colocam uma espécie de Sonrisal no presente e dele não saem só borbulhas de amor, como quer o Fagner. Seria um tempo de revelação, mesmo que fugidio como o passo da gazela ou sutil como o pousar de uma borboleta. Essa estação que se quer eterna — e não o é, mas um mero ciclo, quiçá um breve ciclone que provoca cismas, — passa e deixa sedimentos de esperanças que não podem ser desperdiçados. Fugazes são e precisam ser capturados pelo obturador que repousa em nossos sentimentos.
Como não podemos viver na ante-sala do amanhã, precisamos ralar o chão do presente, tentar dissipar as teias que nos enredam, escoimar o que não nos diz respeito e abrigar os que queremos bem, os que estão conosco para o que der e vier. Estes, são poucos. E justamente por serem raros têm de ser rastreados com destreza e atados pelos fios da benquerença em laços que não devem ser afrouxados pelo tempo, esse déspota que não descansa.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/12/2005.

