No quase final dos anos 60, saído da universidade, eu escrevia uma coluna diária no jornal Correio do Ceará, dos Diários Associados. Tinha o pomposo nome de “Administração e Negócios”. A coluna cuidava de escrever sobre essa profissão que surgia e, por conta disso, li e comentei sobre as minas do Amapá e a exploração de manganês pela Indústria e Comércio de Minérios – Icomi. Seu controlador, Azevedo Antunes, resolveu me convidar para conhecer “in loco” a extração e a exportação do manganês e o fez com liberalidade: “convide os jornalistas que quiser.”
Assim o fiz. Chamei sete. Mas, o que importa nessa história é que João Guilherme da Silva Neto era um dos convidados. Os Diários Associados ainda estavam em seu auge e Guilherme Neto era uma espécie de faz tudo na TV-Ceará, onde hoje fica a “holding” do Grupo Edson Queiroz. Fazia direção, tele-teatro, redação e cantava. E fazia tudo muito bem, com os limitados recursos técnicos de então, dando asas ao seu imaginário e inventividade. Hoje ele é astro do “Clube dos Gatos”.
Não frequento o “O Clube dos Gatos”, uma irreverência semanal etílico-literária onde a sabedoria do falar manso e a beleza de voz de Guilherme Neto se fazem ouvir. Mas, louvo os que ali se reúnem em torno de Baco e das canções com o descompromisso que a amizade deixa fluir. Embora distante, considero-me amigo do Guilherme Neto, pois dizia Emerson sobre a verdadeira amizade: “não precisamos nos encontrar, nem conversar, nem corresponder, nem trocar lembranças”. Basta ser.
Voltando à viagem, saímos de Fortaleza de avião para Belém e de lá para Macapá. Em Macapá, tomamos um charmoso trem privativo e fomos para Porto Amazonas, quando tivemos oportunidade de descansar dos ares e da estrada de ferro. Foi lá que descobri quem era Guilherme Neto, uma figura já madura, mas leve, humana, companheira e agradável. Fizemos uma boa camaradagem, instigados por Lúcio Brasileiro, que também estava no grupo. Anos depois, Lúcio, com a sua mania de nos tornar maiores que somos, resolve chamar Guilherme Neto de “Barão”. Pois não é que acertou. Na realidade, no Ceará nunca houve baronato por nobreza e sim por concessão do poder vigente. Pois Lúcio se tornou o poder concedente e o fez muito bem.
Agora, outro poder concedente, a Câmara Municipal de Fortaleza, outorgou a Guilherme Neto a Comenda Boticário Ferreira e o fez por justiça. E lá no Cumbuco, no seu exílio voluntário, certamente Lúcio Brasileiro, ao polir a dignificante 1ª. Medalha Régis Jucá que recebeu do Ideal Clube, no mesmo dia e hora em que o “Barão” recebia a Boticário Ferreira, verificará que seu gesto jornalístico antecipou em anos a homenagem que a cidade de Fortaleza devia a Guilherme Neto, gente de bem. E gente de bem fica para sempre.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/06/2005.

