HÁ ESTRELAS NO CÉU

Esta semana, o Ceará perdeu duas estrelas. João Clímaco Bezerra e Aldemir Martins. Vieram do Cariri, João Clímaco, de Lavras da Mangabeira e, Aldemir, das Ingazeiras. Vieram pelos caminhos legítimos, naturais e crescentes da vida. Passos lentos, olhares firmes e vontades fortes. Há muitas biografias, resenhas, notícias e críticas sobre cada um. Não me proponho a isso. Desejo dizer apenas serem eles o milagre deste Ceará. São a esperança pessoal transformada em literatura e arte.
João Clímaco, o que veio primeiro, em 1913, fincou-se em Fortaleza, aqui viveu, formou-se em Direito, pertenceu ao grupo Clã, ensinou, escreveu e, já maduro, mudou-se para o Rio de Janeiro, a trabalho. Aldemir veio nove anos depois (em 1922), sentou praça no Exército, participou da Sociedade Cearense de Artes Plásticas e daqui foi também para o Rio, em 1945, e no ano seguinte para São Paulo, de onde as suas artes e cores explodiram.
Um e outro eram cearenses exilados, mas as suas faces, jeito de andar e de falar tinham toda a cearensidade possível. Expressavam-se, por palavras e tintas, como vitoriosos em suas lutas e o faziam, um com a sutileza da crônica e o mistério do romance. O outro, resplandecia nos objetos e animais, as cores fortes que o sol lhe incrustara e dera forma na alma.
Conheci João Clímaco por sua crônica no jornal Unitário, dos Associados. Lia-o com os olhos de menino, a cabeça tentando absorver o dito e o sugerido nas frases sempre bem tecidas e atadas. Depois, fui seu aluno na Escola de Administração. Haviam-no feito professor de psicologia e lá vinha ele de paletó, gravata de laço grosso em crochê e livros a mão, falar de behaviorismo e outros que tais. Uma vez, por conta da não regulamentação da escola, fomos ao Rio em comitiva. Voltamos com a escola legalizada no Ministério da Educação.
Via sempre exposições de Aldemir Martins, gostava de seus galos e gatos. Quando a Ignez Fiúza o trazia para exposições em sua galeria, eu ia por lá. Olhava o seu jeito meio manso, riso fácil e instigante. E foi por lá que comecei o meu pequeno terreiro, vigiado por cangaceiros, a cores e em bico de pena.
Passou o tempo, eles foram ficando por lá, até virarem as estrelas que João Clímaco não encontrara no céu em 1948. Estão lá.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/02/2006.

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