As pessoas nascem, crescem, estudam e lutam. Umas apenas conseguem o mínimo para sobreviver. Outras alcançam êxito profissional, acertam ou não na escolha do parceiro conjugal, têm projetos comuns e uma vida longeva. Incerto dia, pela lei natural, um se vai e fica o outro, geralmente só. Filhos, se existirem, estarão casados, cuidando de suas vidas. Essas observações alinhavadas, decorrem da leitura acidental de notícia do jornal Folha de São Paulo com a manchete: “Por temer briga pela sua herança, Lily Marinho leva a leilão R$ 30 milhões em bens”.
A Sra. Lily foi casada, em primeiras núpcias, com o empresário Horácio de Carvalho. Eles perderam seu único filho, Horacinho, morto, aos 26 anos, em desastre de automóvel. Resolveram adotar um menino, João Batista. JB cresceu, não virou jornal, mas músico e foi morar nos Estados Unidos, onde casou quatro vezes e tem um filho de cada mulher. Horácio ao morrer deixou tudo para Lily. A Sra. Lily casou então com o Sr. Roberto Marinho, das organizações Globo. Agora, viúva de Roberto, aos 87 anos, ciente da finitude resolveu fazer leilão de fazendas, móveis, quadros e joias pessoais e, com o produto da venda, criar um fundo de investimento para o filho adotivo e os quatro netos. Ela se diz temerosa quanto ao futuro do patrimônio por conta de eventuais questões judiciais. Diz ainda que não vê mais sentido em ter tanta coisa ao morar sozinha no casarão que reverterá para os herdeiros de Roberto Marinho- com quem era casada com separação total de bens – após sua morte. O que se deduz é o óbvio: saímos do mundo sem nada. Os bens que acumulamos, por trabalho ou herança, sejam para desfrute, geração de empregos e renda, especulação ou mera ostentação, eventualmente se tornam uma espécie de punição, se a família não se mantiver unida para cuidar, repartir sem traumas e agir com sensatez. Ou, se em caso contrário, se engalfinham em questões, prejudicam empresas ou o usufruto comum dos bens, para deleite de advogados que, às vezes, açulam as partes sem o menor respeito pela memória ou patrimônio de quem se foi e tudo deixou.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/05/2008

