Corriam os anos sessenta. A Escola de Administração do Ceará havia sido fundada, fruto de um arranjo que contemplava políticos com ou sem mandatos como professores e que, em contrapartida, tiveram a sabedoria de escolher alguns nomes de intelectuais de proa para também compor o seu quadro docente. A Escola era apenas agregada à Universidade. Não tinha sede, orçamento, fora praticamente expulsa das salas que ocupava na Faculdade de Ciências Econômicas, no Benfica. Uma casa alugada e adaptada na esquina da Av. Duque de Caxias com a Rua Sólon Pinheiro, em frente ao Colégio Cearense, passou a ser a sua primeira sede efetiva. Foi nesse local, em salas sem ar condicionado, chão de cimento, que conheci Hildebrando Torres Espínola. Ele era jornalista, procurador do IPASE e fora escolhido para ensinar Sociologia. Abro um parêntese para dizer que eu, ao mesmo tempo, fazia direito na UFC e já tivera professores do quilate de Heribaldo Costa e Paulo Bonavides na área de filosofia e da ciência política; e fora aluno atento de Parsifal Barroso em Política Social Qual não foi a minha surpresa ao começar a presenciar as aulas de Hildebrando, esse paraibano alto, bem apessoado, galante, que havia começado a vida como Juiz Municipal na cidade de Taperoá, na Paraíba, em 1947. Deixou a Paraíba, veio trazer seus livros e cabeça inquieta para constituir família, ilustrar a procuradoria do IPASE, o então Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado e que, por formação ideológica e cultural, sedimentara conhecimentos na área da Sociologia. Suas aulas eram um espetáculo, pelo conteúdo, gesticulação forte e sua linguagem que misturava o erudito do conhecimento ao colóquio do grande conversador e “causeur” que sempre foi. Nossa turma era inquieta, diversos olhares para a história e o mundo, e tinha nomes como Barros Pinho, Gerard Boris, Josino Lobo, Ieda Meira, Ivo Martins, Galvão Filho, Lázaro Farias, José Maria Melo, Cláudio Teófilo, Heloisa Barros Leal, Nilce Freire e outros. A todos, Hildebrando dava atenção especial e criava vínculos especiais com alguns que se transformaram em admiradores e amigos. Desse tempo, entre tantos outros episódios e casos, houve um de colega que ficou em recuperação em Sociologia. A Sociologia tem, por exemplo, indagações como a que faz o filósofo Descartes: “O que sou, afinal? Uma coisa que pensa. E o que é uma coisa que pensa?”. Esse colega – pensava raso – não captava a essência da sociologia Ralou, estudou e na prova oral – havia isso naquele tempo – foi uma nulidade. Hildebrando coçou a cabeça e disse, entre sério e maroto: “Vou aprová-lo como punição aos meus colegas professores do próximo ano, não aguento mais sua parvice.” Hoje, passados 07 dias de sua morte, lembro da figura final de Hildebrando, aquietada, ouvidos moucos à liturgia católica celebrada em seu velório, coroas e flores em profusão, cercado pelo carinho de filhos, netos, parentes, colegas, amigos, admiradores e alguns ex-alunos que estavam lá. Hildebrando.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/08/2008.

