HOJE, HOY, SEXTA-FEIRA, VIERNES, VÊNUS E A FAVELA – Jornal O Estado

Hoje, sexta-feira, 04 de julho, é feriado nos EEUU. A América para hoje. Os americanos, além de bandeiras hasteadas pela Independência deles, estarão de olho no jogo entre o Brasil e a Colômbia. Especialmente, os 40 milhões de latinos que vivem da Flórida à Califórnia. Lembre-se que foi o genovês Cristóvão Colombo o descobridor de parte das terras hoje chamadas de Estados Unidos da América do Norte. Colombo originou Colômbia. Entretanto, Gisele Bündchen, brasileira longilínea, mora por lá, é casada com um jogador de futebol americano, não o nosso “soccer”, mas torce pelo Brasil com suas roupas estilosas. Shaquira, cantora colombiana que se mandou para fazer a América, também é ídolo por lá, mas encantou-se por um jogador espanhol que anda de mau humor. “Mala suerte”.
O fato é: hoje é sexta-feira que, segundo Nelson Rodrigues, “é o dia em que a virtude prevarica”. Então, esperemos o entardecer, hora em que Vênus, a deusa do amor e da beleza dirá por quem torcerá. A nossa sexta-feira é “viernes”, em espanhol, homenageando Vênus, mas é também dia de Afrodite, na mitologia grega, deusa do afeto e da formosura. E como os brasileiros e as brasileiras, como dizia Sarney, se acham bonitos e formosos, vamos ver se Afrodite nos vê com bons olhos. Recordo que Luís de Camões, no “Os Lusíadas” mostra Vênus como a grande apoiadora dos heróis portugueses. Vasco da Gama à frente. E Vênus tinha a ajuda de Marte, o deus da Guerra. Ora, nós somos descendentes, entre outros, de portugueses. Não há como Vênus e Marte não estarem do nosso lado.
Nas famosas mídias sociais, que chamo de antissociais, há uma musiquinha feita agora pelos conterrâneos de Gabriel García Márquez, que morreu em uma quinta, em que cantam ser hoje “o dia da morte de Neymar”, referindo-se a vitória deles no nosso Castelão. Voltando aos Lusíadas, há o canto dedicado ao “Velho do Restelo”. Nele, são chamados de vaidosos aqueles que, por cobiça ou ânsia de glória, se lançam em aventuras ultramarinas. Não seria o caso simbolista da “da morte de Neymar”?
Nós não queremos que ninguém morra. Que todos saiam felizes, inclusive Neymar e James Rodriguez, sem falar em Felipão, com sua cara de dono de churrascaria do interior dos pampas. Até a psicóloga Regina Brandão, com sobrancelhas arqueadas por algum aditivo químico, foi chamada para falar com os meninos-chorões que ganham milhões e deveriam ser mais corajosos. Ela, Regina, disse (FSP, 02.07. D11): “A psicologia do esporte tem a sua metodologia científica, não é autoajuda, com palestrinhas antes dos jogos. Há toda uma contextualização dos atletas, do grupo, do momento, que é levada em conta”. Será que os jogadores sabem o que é “contextualização” e vão seguir a sua “metodologia científica”, em meio às caneladas do jogo? Talvez um cantor de pagode ou samba de raiz desse mais energia.
Agora, em Fortaleza, do grande hotel em que estão hospedados, os jogadores poderão olhar pelas janelas envidraçadas e ver uma favela pequena, com meninos vadios, em um dos poucos morrinhos da cidade. O “Morro do Ouro” está engalanado com as cores verde-amarela e é provável que levem os atletas a pensar e a lembrar dos seus sonhos de crianças humildes. Recado para todos, do Júlio César ao Hulk, passando por Neymar: não se deixem embalar pelo luxo do centro de treinamento de Teresópolis, a empáfia ensinada por agenciadores, o orgulho e a segregação imposta pela segurança em aviões especiais e ônibus de vidros escurecidos, com seguranças em zig-zig. Vocês são povo. Pisem o chão da realidade. O povo luta, enfrenta obstáculos e, quase sempre, vence. Vocês sabem disso. Mostrem quem são. Com certificado de origem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/07/2014

Sem categoria