Hoje é noite de Oscar em Hollywood. Não tem nenhum filme brasileiro (Diários de Motocicleta é falado em espanhol e é uma coprodução de vários países) na disputa e, se tivesse, certamente não ganharia. Quais as razões? Não sei, mas desconfio. Os diretores e produtores brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em fazer filmes que realçam a tal estética da miséria ou contar, em parceria, por exemplo, a história do jovem Che Guevara (Diários de Motocicleta). Filmes como Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido no critério hollywoodiano de escolher os vencedores da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem indicado foi.
Não adianta fazer lobby, associar-se com gringos, dar entrevistas e sonhar. Aliás, sonhar é bom, mas o sonho da turma de cineastas e produtores americanos é diferente do nosso. Eles não veem estética na nossa exposição de miséria. As nossas fraturas sociais não dizem respeito à traumatologia cinematográfica da era Bush.
A festa da noite de hoje é, quer nós queiramos ou não, a festa da futilidade, exibição, filmes coloridos com histórias limitadas, grandes efeitos especiais, apresentador engraçado e entrevistas abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades nuas e cruas ou discutir o essencial. É o cinema quase inconsequente ou glamouroso. Lá o fórum é outro. É alienado, desengonçado e segue a estética das limusines, vestidos vaporosos, artistas com gel no cabelo, s esperando os “flashes’ e olhando para as câmeras. As críticas, quando as há, são em favor de alguma minoria ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada. É querer muito. Se é tempo de guerra no Iraque, miséria na África, “tsunami” na Ásia e guerrilhas na América Latina, os membros do júri do Oscar não querem ver, saber ou discutir disso.
E parece que, mesmo assim, os filmes americanos continuam sendo admirados por aqui. O filme “Hitch” (Tennant, diretor e Will Smith, ator), uma comédia sobre um conselheiro sentimental, onde o espectador não precisa pensar, foi visto por mais de 262 mil brasileiros no último fim de semana. O “Aviador”(Scorsese e De Caprio) que é um pouco, só um pouco, letrado, pois conta a história, fragmentada, de uma das muitas versões de Howard Hughes, empreendedor rico, cínico e visionário que enveredou pelo transtorno obsessivo compulsivo e terminou louco, foi visto por 121 mil. E olha que não estou falando dos filmes “Menina de Ouro”, de Eastwood com Hillary Swank (a moça lutadora de Box) e “Sideways”, de Alexander Payne com Paul Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando conquistas e depressões) que mexem com sentimentos. Parece que os brasileiros estão cansados ou cansando do uso da miséria para os mais diversos fins.
Quem sabe se mandarmos no próximo ano um filme da Xuxa ou do Renato Aragão não teremos mais chances de indicações?
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2005.

