Todos os dias somos obrigados a decidir. Fazer ou não exercícios, qual roupa vestir, tomar café ou não, qual rota ou meio de transporte tomar para o trabalho, como melhorar no serviço, como crescer profissionalmente. As decisões podem ser aparentemente automáticas, mas são frutos de processos complexos. Uns, analíticos, racionais. Outros, instintivos ou emocionais. Quase todos têm uma ou mais histórias para contar da decisão certa não tomada ou da precipitação na decisão errada acontecida. Não há regra geral, tudo é casuístico. Ninguém é totalmente razão, tampouco só emoção. Há um cientista português, reconhecido por seu saber, o professor de Neurociência da Universidade Southern Califórnia, nos Estados Unidos, António Damásio. Ele escreveu dois livros sobre o tema: “O Erro de Descartes” e “Sentimento de Si”. A redação talvez corrija o prenome dele. Colocará Antônio, maneira brasileira de escrever o nome. Isso é decisão, pois baseada na lógica da língua. Voltando ao Damásio, ele diz: “se a pessoa tem que decidir sobre a sua vida, a sua saúde, as suas relações humanas, a sua educação, é evidente que não toma decisões instantâneas”. Por outro lado, afirma ele, se alguém lhe apontar uma arma a sua reação será imediata, não precisa de elaboração ou deliberação. Ela faz parte da memória evolutiva, do aprendido com avós, pais, amigos, ambiente social etc. É comum ver gente sem saber decidir qual sapato comprar, o filme a assistir, a escolha no cardápio do restaurante. Imaginem então o dilema do(a) jovem ao decidir aos 17/18 anos o curso ou faculdade a fazer. Falta experiência e sobra ansiedade. A capacidade de decidir pode ser treinada, afirma Damásio, mas há muitas variáveis em jogo, especialmente saber se a personalidade é dual, reflexiva ou imediatista. Pensar cobra partes da intuição e razão para dar respostas certas aos desafios, medos e oportunidades. Um jogador de futebol, por exemplo, não tem tempo para pensar se entra ou não naquela bola dividida ou se chuta assim ou assado. Ele chuta como pode. O resultado depende da capacidade, treinamento e personalidade. Pelé que o diga. E o Dunga?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/06/2010.

