IMAGINE – Jornal O Estado

Imagine-se sem dinheiro, sem estudo, sem trabalho e sem casa. O primeiro terreno, seja em beira de rio, encosta de morro ou “rua da prefeitura”, serve. O mais é sair juntando madeira, parcos tijolos, entulho, papelão, telhas velhas, pneus e a morada estará pronta. Uma puxa outra, mais outra e se forma uma favela. Dirão sempre que moram ali há anos. Aí aparecem os políticos e os candidatos a políticos e dizem que vão urbanizar, iluminar e sanear. Imagine, paralelo a isso, uma indústria crescente no Brasil, a da invasão de terrenos. Há tropas de choque para escolher, definir, fotografar, filmar, “olhar no google”, programar e invadir terrenos. Tudo nas cidades. Os invasores têm “tecnologia”. Dá lucro fácil e as revendas são rápidas. Geralmente, aos fins de semana, grupos invadem área, marcam os “lotes”, os fiscais e a polícia fazem vista grossa e cria-se o que definem como movimento social de ocupação. E assim o fazem. Os processos de reintegração de posse quase não andam. Os juízes alegam não poder mandar citar “José de tal”, Maria do Barraco Azul etc. Os legítimos donos querem sua devolução, contratam advogados, pagam custas judiciais e amargam anos, décadas até, para o processo andar. E se não pagam o IPTU do imóvel invadido vão para o SPC, Serasa e, em breve, sacarão os impostos das suas contas bancárias. Imagine-se também com a capacidade de mapear nas cidades as residências dos policiais civis e militares. Por ganharem aquém do necessário, moram, quase sempre, na periferia e aí, mesmo sem desejarem, são obrigados a conviver com todos. Parte ínfima do todo é composta de marginais, tal como acontece também em bairros onde moram os tidos como classe média e “ricos”. Dessa proximidade espacial surge a camaradagem e daí para o desatino bastam a argúcia do delinquente, a tentação e a necessidade. Por tudo isso é que me pergunto se as ações humanitárias que o Brasil faz no Haiti (é claro que o Haiti precisa, mas…) e em outros países mais pobres que o nosso, não deveriam começar aqui com a atenção para, por exemplo, os que cuidam da segurança pública, sejam policiais ou agentes prisionais. Mereceriam eles ou não serem clientes prioritários, por exemplo, do “Minha Casa, Minha Vida”? Um redesenho dos antigos financiamentos da Caixa para casas populares, das antigas cooperativas habitacionais, das ancestrais Cohabs e tudo o mais que foi considerado o sistema financeiro da habitação. Criou-se por lei (4.380), extinguiu-se pela desídia e malversação. São Paulo e o Rio são estados onde a miséria e a riqueza moram juntas. Em qualquer cidade média ou grande, também. Claro que uma chuva forte de mais de 200 milímetros pode causar estragos, mas o saneamento básico- quando existe – deve servir também para coletar dejetos e escoar as águas da superfície em bueiros limpos. E onde ficam os bueiros limpos? Se há ocupação consentida de morros, encostas, orlas marítimas, rios e lagoas, estamos, a cada dia, plantando o caos para a próxima enchente. A solução não é olhar para a meteorologia, mas cuidar de fazer certo o que se propaga e não se executa. Desde o século passado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/04/2010.

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