Parte dos brasileiros ainda debocha do episódio da independência brasileira. Pouca gente estudou o assunto, pesquisou a história e se compraz em achar graça e ridicularizar o ato. Bobagem ou falta de autoestima nacional. Seria o inconsciente coletivo do povo?
A independência das colônias latino-americanas já vinha acontecendo há tempos, seguindo o exemplo da América que se libertou da Inglaterra, em luta que durou de 1775 a 1782, mesmo após a independência em 04 de julho de 1776.
Os latino-americanos aproveitaram o exemplo da América e a invasão francesa em Portugal e Espanha por Napoleão Bonaparte, destronando os seus soberanos, propiciando a onda de rebeldia nas colônias. Foi a essa época que surgiram, entre muitos, Simon Bolívar. Miranda, Hidalgo, San Martin e Iturbide, com os processos de libertação da Venezuela, México, Chile, Colômbia, Equador, Argentina e outros.
O enfraquecimento dos países colonizadores, Espanha e Portugal, oferecia clima propício, e isso ajudou a eclodir um sentimento de revolta e a procura da independência. No caso específico do Brasil, surgiu em 1820 o regime constitucional proclamado pelos portugueses, mas a pressão dos separatistas criava condições para a independência.
D. João VI, como todos sabem, foi chamado de volta à Portugal em abril de 1821, deixando seu jovem filho D.Pedro I, como regente. A esse tempo, a maçonaria brasileira, talvez procurando cooptar D.Pedro I, outorgou-lhe o título de “defensor perpétuo do Brasil”, aconselhando-o a não obedecer às ordens de Portugal. A partir desse e de outros fatos, surge o episódio do Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, e começa a história que todos conhecem.
O não derramamento de sangue no episódio da independência brasileira parece ter frustrado alguns historiadores e patriotas, apelando para o deboche, perdurando até hoje. O que essas pessoas não atentam é que o Brasil estava cercado de lutas libertárias em todo o continente e isso foi o elemento indutor do processo que se fez, graças a Deus, pacificamente, pois não houve resistência de Portugal, sem forças, pois às voltas com seus próprios problemas.
Criava-se, naquele episódio, uma característica própria da nação brasileira. O diálogo sempre tem superado as questões ideológicas. País gigante, não viveu grandes episódios localizados ou generalizados de insurreições, guerrilhas significativas, revoluções ou movimentos separatistas. Com o seu imenso território, tem oferecido a nós brasileiros, apesar de tudo, esse clima de liberdade, euforia e a capacidade de superar os nossos problemas, ainda tão grandes.
Em meio a denúncias de corrupção, às procelas da globalização, acrescidas do canibalismo interno das grandes empresas nacionais, o Brasil vive um momento muito especial, pois tem que se firmar como nação independente, neste mundo comandado por corporações transnacionais que desrespeitam fronteiras, descaracterizam culturas e corrompem instituições e governos. Para isso, mais uma vez, temos que nos unir e, sem deboche, procurar consolidar a nossa independência, comum a todos os que nasceram e vivem neste país tão maravilhoso.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/09/2000.

