Ninguém desconhece existir boa intenção e firme propósito do Governo Lula em resolver, entre muitos outros, os problemas gravíssimos da fome, desemprego, assistência médica pública, inclusão social e desequilíbrios regionais. Lula tem fé de ofício nessas áreas. Saiu de Pernambuco em um Pau-de-arara, amargou fome com a família, viu a primeira mulher morrer por falta de assistência médica e foi um sindicalista proeminente no combate ao desemprego. Conhece, de prova provada, o que é desequilíbrio regional. Vivia na São Paulo dos pobres, sem participar da São Paulo dos ricos que hoje querem ser os seus mais recentes amigos de infância. Lula tem formação de vida nitidamente paulista, mas traz na sua história genética a dor e a angústia do nordestino retirante.
Ninguém desconhece também que grande parte dos atuais ministros de Lula não tinha experiência na gestão dos graves e complexos problemas a necessitarem de soluções urgentes e equilibradas. Isto não quer dizer que as pessoas escolhidas não possam adquirir experiência, mas é preciso saber que a palavra experiência deriva de experimentar ou experienciar. Em outras palavras: leva tempo. Por outro lado, o Brasil entregue à Lula e sua equipe era, e ainda é, um país dividido em Capitanias na mão de ´lobbistas´, políticos e partidos praticando pouco do discurso, especialmente quando diante de microfones ou em entrevistas públicas. Acresça-se a isso, a existência de uma burocracia pesada, cara e pouco eficaz, sem entender ou não querendo entender a necessidade da agilidade no serviço público. Um país com pouca burocracia seria a nova cara do Século XXI.
Neste sentido, os agentes públicos precisam ficar cientes de que todos os brasileiros, direta ou indiretamente, são contribuintes e os verdadeiros pagadores de seus salários e aposentadorias. Ao entrar em uma repartição, qualquer brasileiro se sente aturdido e desestimulado pela morosidade das informações e, muitas vezes, pela indiferença ao que acredita ser legítimo pleitear. Todo brasileiro é cliente da máquina estatal e por tal razão merece ser bem tratado, independente da sua condição social ou financeira.
Já ouvimos falar de várias reformas, especialmente as previdenciárias (para diminuir despesas) e tributária (para gerar mais receitas). Não se falou, contudo, da necessidade de uma reforma ou planejamento administrativo, gerencial ou estratégico para tudo funcionar. Isto nos remete às intenções e propósitos de Hélio Beltrão e Paulo Lustosa em desburocratizar o Brasil. A realidade mostrou terem sido vencidos pela máquina kafkaniana da burocracia. É preciso, portanto, contar com o apoio dos servidores públicos e dos gestores de escalões intermediários. Sem eles, será difícil aproximar intenção e propósito da realidade fática.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/09/2003.

