INTIMIDADE

Muitas pessoas imaginam ser agradáveis ao tentar pensar sobre os seus sentimentos. Algumas são tão falsas quanto uísque do Paraguai. São melosas, fingem uma intimidade que não têm e, como não querendo nada, disparam: como vai você? Conte-me os seus problemas. Você não se sente só? Você precisa de alguém para compartilhar as suas tristezas e alegrias? Essas são as mais perigosas e esquecem que seu disco já está gasto e as frases de efeito não produzem mais resultados. A não ser nas pessoas incautas ou carentes.
Há outras, honestas no perguntar a quantas andam a sua vida, mas não dispõem de ferramentas para apertar as porcas frouxas das suas dores ou de óleo para lubrificar suas ilusões. No fundo, são bisbilhotices e a solidariedade mostrada em nada resolve os seus males, sejam eles reais ou imaginários.
Muitas pessoas se aproximam e dizem que gostam de nós. Ora, como podem gostar do que não conhecem? É preciso conhecer, saber quem o outro é, o que fez e faz, como vive, para admitir o bem querer. Não o bem querer de coquetéis com vinhos e destilados atilando uma intimidade fugaz. Para gostar é preciso caminhar uma mesma estrada, identificar os sinais do corpo e as mazelas do espírito. Não é, por exemplo, a nudez moteliana que torna as pessoas íntimas, é algo mais profundo como sentir os olhos, beber os sentimentos, entender os silêncios e perdoar os ditos malditos.
Não permita que devassem a sua intimidade. Importa não que fabriquem versões a seu respeito. Se isso acontecer, paciência. Faz parte da vida. As pessoas que não dão vida às suas vidas vivem do que imaginam ser a vida dos outros. Fantasiam, xingam, caluniam e nisso vão agregando uma couraça invisível, mas sensível a quem conhece um pouco esses amigos de araque.
Os amigos não precisam alardear afinidades. Afinidades não são trombeteadas, são guardadas com o carinho especial dos que não necessitam provar nada. Basta o fluir da vida e elas se agregam de uma forma misteriosa e bela. Os verdadeiros amigos não perguntam, eles sentem. São presenças sem serem chamados. São ouvidos atentos para os nossos silêncios ou queixumes. São uma força magnética imantando atitudes desinteressadas e não pedidas.
Os caros e poucos amigos não devassam a nossa intimidade, eles fazem parte dela, desnudam-na sem perguntas e nos tornam fortes em meio às fraquezas comuns aos humanos. Os amigos não adulam. Apoiam e confortam. Os amigos têm o direito da crítica pela capacidade de saberem tocar os nossos sentimentos. Mesmo que, às vezes, isso possa doer.
Os amigos tomam partido e não assumem atitudes dúbias, convivendo com os nossos inimigos. Eles nos defendem em nossas ausências e procuram entender as nossas razões. André Malraux disse certa vez: “Amizade não consiste em apoiar os amigos quando eles têm razão, mas quando erram”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/1999.

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