Grande parte dos brasileiros, por comodidade, economia e para facilitar o controle de despesas mensais, paga as suas contas com cartões de crédito. Você paga com cartões de crédito estrangeiros. Eles têm seu endereço, CPF, sabem em que você gasta, quanto gasta por mês, que lugares frequenta, quando e para onde vai. Querem um exemplo? Soube-se que o escritor Dias Gomes, antes de morrer acidentado, jantou no restaurante paulista “Famiglia Mancini”, o que comeu, quanto pagou e saiu às 1:53 horas do dia 18.05.99. A precisão das informações, inclusive o horário de saída, 1:53, deve-se ao registro do pagamento eletrônico feito por cartão de crédito.
No instante em que se liga o telefone, em uma companhia privada controlada ou de propriedade estrangeira, tudo fica registrado e um simples detetive bisbilhoteiro pode saber para quem se liga, se não ousar gravar a conversa.
Não se passa um dia sem que a imprensa informe algo inovador na forma de invadir a privacidade individual. Tomemos, por exemplo, uma notícia, na primeira página da insuspeita Gazeta Mercantil, de 17.05.99: “O recrutamento de executivos está chegando à era dos Jetsons. Recrutadoras como a Korn/Ferry, a Heidrich & Strugells e a Russel & Reinolds estão implantando a busca de profissionais via Internet. …A Korn & Ferry desenvolveu um recrutamento para lá de futurista, que deve chegar este ano ao Brasil. Profissionais selecionados pelo “site” Futurestep (Degrau do futuro, trad. nossa) recebem em suas casas envelopes da Federal Express. Dentro dos pacotes, está uma minicâmera chamada de videofone, que eles devem plugar na tomada de seus telefones. Um headhunter (caçador de talentos, trad. nossa) liga para esses profissionais e eles são entrevistados e filmados, enquanto podem ver o entrevistador na tela suas minicâmeras “.
O mundo está ficando globalizado, como já previa a “aldeia global” de Marshall McLuhan, nos anos 60, e nós não temos mais privacidade. Paradoxalmente, o livro “1984”, de George Orwell, falava do perigo de um Big Brother (Irmão Grande) comunista que saberia tudo das nossas vidas. A realidade nos mostra o contrário. São as grandes empresas e o Estado, dito democrático, quem grampeia telefones, filma escondido e sabe o que querem de nós, através dos registros feitos ao longo de nossas vidas. Um dia desses, assisti ao filme americano “O Inimigo do Estado” e saí do cinema, mesmo descontados os exageros, abismado com a parafernália utilizado para conhecer a vida de um advogado. As informações, a tecnologia e a eletrônica são espiões silenciosos, eficientes e de relativo baixo custo.
Nós não deveremos mais ter a ilusão de que a nossa intimidade nos pertence. Cada ato de consumo seu, seja o simples crediário preenchido inocentemente, uma mera ficha cadastral para receber um cartão de crédito ou uma passagem aérea, vai definindo o seu perfil e lhe colocando nas malas diretas vindas de todos os cantos, oferecendo tudo. Sem que saiba, você passa a ser um registro vendido pelas empresas de mala direta e isto lhe torna, independente de autorização, uma pessoa sem privacidade, mas um “cidadão global”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/1999.

