IVAN, O POSSÍVEL – Jornal O Estado

O nome Ivan Sérgio pode ser oriundo de romances de Tolstói, Dostoiévski e de outros russos, lidos por Fran e Lúcia Martins, pais literatos e viajores. Houve nove czares com o nome Ivan. Um cognominado, o Terrível.
Ivan Sérgio Fernandes Martins, filho de Fran e Lúcia Martins, nasceu, viveu e trabalhou no Outeiro, dito Aldeota, quiçá Meireles, do qual fazia parte o loteamento de nome Lidiapólis. Era de propriedade de Antônio Cristalino Fernandes, pai de Lúcia, sua única filha e herdeira universal.
Era muita terra para ser cuidada por um casal de letrados que viam, ano a ano, o Imposto Predial subir. Poucas casas alugadas, o resto era de terrenos ao longo da hoje Av. D. Luiz. Fran era professor da Universidade Federal do Ceará, com notório saber em Direito Comercial, tendo publicado livros de uso corrente em quase todos os cursos de Direito, Brasil afora.
A casa da família ficava na D. Luiz, murada e com cachorros soltos para vigiar a área que era deserta, salvo umas casas na Av. Desembargador Moreira e muitos casebres. Alguns não sabem que o apodo cachorro se originou dos amigos – vamos a casa do Ivan, dos cachorros – e depois, o singularizam.
Bem criado e apessoado, no tempo certo lá se foi Ivan fazer intercâmbio de High School, em Michigan, Estados Unidos. O menino que foi, voltou guapo rapaz com muitas ideias na cabeça. Fez Administração, prevendo ser o fiel depositário da Imobiliária LM, de Lúcia Martins que pagava muito Imposto Predial nas casas que alugava na Av. Desembargador Moreira e nos terrenos ao longo da Av. Dom Luiz. Os aluguéis não cobriam o total a ser pago de IPTU. Surge, então, a Construtora
LM, comandada por Ivan, Vânia, irmã; e Stênio, sobrinho-irmão. Construiu shoppings na Av. Luiz e um no Cariri.
No que seria o último, Ivan ousou. Fez um complexo integrado com shopping, torres residenciais e comerciais. Obra de vulto, projeto de André Sá. Procurou um banco para obter a linha de financiamento do BNDES. Fez o contrato. O financiamento não saía (hoje, sabe-se a razão – era só para os amigos do poder). Entrou no cheque especial e a dívida crescendo. Banco não possui amigos. Nada de BNDES. Virou, mexeu e lembrou-se de usar um capítulo escrito por seu pai para o Código Comercial, a Recuperação Judicial.
A obra atrasou e Ivan, com a coragem inata, reuniu os seus credores no Cine São Luiz e prometeu pagar a todos, dando os seus bens pessoais como garantia. Não saiu de lá apedrejado, como agouravam alguns. Saiu pela porta da frente, triste e altaneiro. Dito e feito, quitou as dívidas e lá se foi para São Paulo, morar com a filha Lina, única e querida.
Redivivo, planeja e executa, com novos parceiros, o residencial “Cidade Jardim”, no bairro do Mondubim, ao lado da Cidade José Walter. Milhares de casas, com urbanização a incluir árvores em áreas definidas, retiradas de um viveiro/jardim que ele, certa vez, me mostrou com orgulho. Mais casas não foram construídas por culpa do Governo Federal, a atrasar desembolsos. Ivan, fez o possível.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/03/2017.

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