Já confessei ser leitor compulsivo. Caiu-me ontem às mãos um folheto de uma fábrica de cimento. Depois de lê-lo, parei e fiquei pensando em um dia no princípio dos anos setenta. Começara a vida real, a da luta pela sobrevivência, e estava em Mossoró, Rio Grande do Norte, dirigindo uma equipe e elaborando o Plano Diretor da cidade. Havia ganhado o serviço em concorrência do Ministério do Interior e o trabalho era árduo. Um dia, detalhando para o prefeito Dix-Huit Rosado, uma mudança urbana necessária, ele levou a mão a cabeça, como se lembrasse de algo, e disse “vamos ao aeroporto que já estou atrasado”. Lá, um pequeno avião taxiava, e dele desceu um homem de jeito e compleição nordestina, “slacks” branco, chapéu e testa larga. Era João Santos, o dono de fábricas de cimento que chegava. De lá, fomos almoçar. Dix-Huit disse para ele que eu estava mexendo em toda a cidade. João Santos olhou para mim, perguntou quais as minhas ideias, ouviu calado. Ao fim do almoço, nos despedíamos. Ele, João, olhou para mim, chamou-me a um canto, e perguntou de chofre: quer largar isso e vir trabalhar comigo? Engoli seco e respondi que não, queria ser dono do meu tempo e do meu destino. Agora, mais de trinta anos passados, lendo o tal folheto das primeiras linhas referidas, revejo que aquele homem simples, já falecido, construtor um império a partir do nada. Era um menino do interior de Pernambuco, igual a tantos outros. Mas havia nele o germe da esperança, da inquietação e, formado cedo em economia, meteu-se pelo mundo afora, lutando como sabem fazer os obstinados. Aportando na Bahia e, pouco a pouco, disseminando força por todo o Nordeste, em múltiplos e vitoriosos empreendimentos, inclusive comunicação. E veio, como já disse, a imagem nítida desses momentos importantes para mim, um jovem fincando base para o futuro em meio ao calor abrasador da terra dos Rosados. E lembrei também de Dix-Huit, um desengonçado, culto e doce grandalhão, político de têmpera que, logo depois, seria preterido para o governo do Rio do Grande do Norte, apenas por ter, como Senador que fora acompanhado à China a comitiva do então vice-presidente João Goulart. No dia seguinte à derrota, me desloquei à sua fazenda, e lá encontro o futuro ex-governador sozinho, de botas, chapelão. Pegou a sua velha pickup Toyota e saiu conversando comigo, como se nada tivesse acontecido e a mostrar as plantações e irrigações que fazia.
(dedicado a todos os que subiram a escada da vida por seus próprios pés)
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/11/2009.

