Se tudo ocorrer como esperamos, Jorge Tufic, grande poeta, tão amplo quanto o Acre e o Amazonas reunidos, Estados onde, no primeiro, perdeu o umbigo e, no segundo, adquiriu sabenças e postou-se como profissional capaz de ter vida longa e equilibrada, receberá nesta sexta-feira a comprovação efetiva da benquerença recíproca que, unilateralmente, destinava com seu passionalismo árabe à Fortaleza, esta cidade-mulher, meio volúvel e instável em seus humores.
Afinal, depois de tanto assédio, ela se rende aos afagos ilimitados que, por anos, lhe fez Jorge Tufic, cofiando seus vastos bigodes. E tomo dele, emprestados, versos de seu poema Vênus para mostrar, pintado, o corpo de delito de sua paixão por Fortaleza: “Dá-me, Apeles, o sangue dos teus dedos e as cores deste mar, espuma ardente em que Vênus ressoa e se reparte entre deusas e bichos, céus e terras, para que a louve, prostituta imensa feita de orgasmo e sol”. Sim, é linguagem de amante não correspondido.
Aqui nesta terra ele assentou sua oca, deixando a glória pública, a consagração e o afeto dos muitos amigos e admiradores do Estado do Acre, um prolongamento da força cearense fincada ao norte por Plácido de Castro. Deixou, igualmente, de frequentar academias, saraus e as páginas da imprensa amazônica que lhe devota respeito e admiração. Veio para a adusteza do Ceará, acalentado pelos ventos e os mares que o embeveceram e o tornaram, se possível, maior poeta do que já era.
E o fez por Destino, título de um dos seus poemas em que diz: “Um tear e uma aranha ponteiam meu destino. Quando o tear se esgota a aranha pega o fio e sobe.” O tear do norte se esgotou e ele se enredou nos fios da aranha-fortaleza e com ela subiu, mais ainda.
Se tudo correr como esperamos, Jorge Tufic, este homem que fez o sol de Fortaleza mais brilhante com o esplendor do seu saber poético, esparramado em versos consagrados, aquilatados e premiados, neste dia de hoje, 19 de outubro, será Cidadão fortalezense.
Cidadão do sagrado mundo dos que deliram em versos, não os frutos da consciência, mas os do saber-sentimento denso que responde a inquietações de sua profundeza existencial. Receberá esse título das mãos de um vereador-médico, acostumado a suturas, reduções e ajustes nos esqueletos humanos, mas que sabe das letras e volta sempre os olhos para as almas dos que mourejam palavras. Machado Neto, Machadinho, entregará um sândalo sob a forma de pergaminho perfumado com os olores de sua amada Fortaleza.
E esse pergaminho de cidadania da terra de Alencar terá, em contraponto, um ganho verdadeiro. Em troca, a cidade perderá um amásio e ganhará um filho ilustre que, quem sabe, imortalizará em versos essa sua nova condição humana.
E, tenho certeza, mesmo que não verbalize em seu agradecimento de poeta e fortalezense o amor agora correspondido, Jorge Tufic, tímido e contente, diria, com versos seus já escritos em Restinga’s Bar: “Sou frágil, meu bem, que nada pode separar-me de ti. Teu nome é um sonho que navega em meu sonho.”
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/10/2007.

