JOSÉ MINDLIN – Jornal O Estado

As pessoas que admiro são, quase sempre, mais velhas. Desde jovem, tive o prazer de conviver com os de mais idade. Elas nos enriquecem com suas sabedorias e até as rabugices. A minha referência de velhice sempre teve um marco: velho é que tem 20 anos a mais que eu. Agora, por circunstâncias, diminui para 10. José Mindlin, desde há muito, foi uma dessas pessoas. O admirava como empreendedor da Metal Leve, indústria de sucesso. E passei a admirá-lo mais a partir do dia em que decidiu vender a sua empresa e dedicar-se, integralmente, a seu amor eterno: os livros. Mindlin morreu no último sábado, 28 de fevereiro aos 95 anos. Um detalhe chamou a minha atenção: a TV a cabo, Globo News, reprisou, sábado e domingo, por 04 vezes, uma entrevista que ele concedera em sua biblioteca em 2006. Falava, entre outras coisas, da doação de parte de sua biblioteca, a denominada Brasiliana, composta de 17 mil títulos e 40 mil volumes para a Universidade de São Paulo, onde se formou em direito e conheceu Guita, sua mulher. Na segunda, a Folha de São Paulo, na sua manchete, fala no bibliófilo, mas o texto que acompanha sua foto, o identifica como empresário. Ora, não há impeditivo de um empresário ser bibliófilo. Não há também nada que o impeça de ser intelectual. E esse conjunto de características foram os vetores da vida de José Mindlin, esse vitorioso paulista, filho de imigrantes judeus ucranianos. Participo da Associação Brasileira de Bibliófilos, uma das poucas entidades que luta para, na sua vertente, manter vivo o amor e cuidado com os livros, especialmente em suas primeiras edições, desde que raros. Assim, o livro precisa “envelhecer” para tornar-se raro e ser objeto de desejo dos que são, de fato, bibliófilos. O leitor lê os livros, o bibliófilo é um seu enamorado, cuidador ou até adicto. O próprio Mindlin confessou em seu livro de memórias “Uma vida entre Livros” que tinha a doença. Revela: “Mas uma doença que me fazia sentir bem, ao contrário das outras e, que, além do mais era incurável”. Aqui no Ceará, por algumas vezes, recebemos a visita de José Mindlin, graças ao esforço de José Augusto Bezerra, presidente da ABBI, que acumula duas das características de José Mindlin: é empresário e bibliófilo. Em uma dessas ocasiões, na Casa José de Alencar, provoquei Mindlin para falar de seus autores preferidos. Ele, sábio e judeu, se fez reticente, mas acabou revelando alguns nomes. Roubo de Antônio Candido a descrição que, para mim, melhor definiu José Mindlin: “Indiscriminado e seletivo, glutão e refinado, ele é (era) o tipo ideal de leitor, porque sabe que nenhuma leitura é perda de tempo se der prazer”. Nossa ABBI, que o tinha como lume e porto, adotou o seu nome para a comenda que confere a poucos. Mindlin, a leitura como princípio e fim.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/03/2010.

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