“A vida é um jogo do qual ninguém pode retirar-se, levando apenas os lucros”. André Maurois
Juarez Leitão, professor, historiador, biógrafo, poeta, acadêmico, orador consagrado, pai exemplar, conversador nato, marido responsável, andou meio amofinado por uns meses. Abusou da regra três, onde menos vale mais. Além da herança cardíaca da família, comia de tudo, de torresmo a sarrabulho, e eis que o cinturão havia, desde o século XX, passado da medida de 100 cm. Começou a ter umas coisas e foi se achegando a médicos amigos que lhe recomendaram exames.
Dona Maria, sua mulher e digna consorte, também com sorte, limpou as lentes dos óculos e disse algo assim: Bem que lhe falava, Juarez. Agora, vamos ver esses exames. Registre-se que o Juarez, embora criado com limites lá no seminário de Sobral, após isso, passou a ser desrespeitador das fronteiras do bom senso e não podia ver prato cheio. Tome garfadas.
Já com um pouco mais de meio século nos costados, o velho corpanzil começou a rezingar. Foram as danações lá no antigo jornal e editora do Dorian Sampaio, as comilanças no Clube do Bode, além dos churrascos noturnos nos áureos tempos do “Cirandinha” na Praia de Iracema.
Então, um médico consultado desandou a explicar que o alimento ou a bebida tem um trajeto natural: boca, passa pela epiglote, caminha pelo esôfago e cai no estômago. Ouviu do bom doutor que da boca aos finalmentes, há um sistema digestório que mede 9 metros de comprimento. E tome conversa sobre intestinos delgado e grosso, digestão e prisão de ventre. O esculápio falou em fígado, vesícula biliar, pâncreas e baço, além dos já nomeados.
O nosso personagem começou a suar frio. Era informação demais para a sua cabeça, ansiosa por natureza. O médico nem ligava e dizia: quanto mais ansioso o senhor ficar mais a adrenalina é liberada no seu organismo. O fluxo sanguíneo aumenta para os músculos e encéfalo e, ao mesmo tempo, diminui nas glândulas salivares. Remetido a uma ampla bateria de exames, os fez, é verdade, mas guardou os resultados sem mostrar ao médico. Deixou o tempo passar até que aconteceu o infarto.
Foi assim: Certo domingo, depois de visitar o Mercado São Sebastião com o amigo Edmo Linhares e ali comer tapioca, passou pelo Raimundo dos Queijos, recanto boêmio do centro, bateu papo com amigos até às dez da manhã. Já em casa, começou a sentir uma leve dor no peito que crescia de intensidade.
Escondeu tudo quanto pode da mulher e das filhas, mas quando não aguentava mais, anunciou que estava mal e precisava ser socorrido em ato contínuo. Atendido no Prontocárdio e, em seguida no Hospital São Carlos, sofreu a primeira intervenção no coração. Dois “stents” na artéria principal. Voltou disposto a mudar de vida. Emagreceu dez quilos, cancelou frituras e bebidas alcoólicas.
Com o incidir do tempo, voltou a comer muito e a engordar. Um ano depois, as dores no peito volveram, agora com suores e fadigas. Uma tarde, na Academia Cearense de Letras, passou mal e foi conduzido a hospital.
Rigorosos exames revelaram isquemia cardíaca. O cateterismo assustou: os stents semientupidos, várias artérias comprometidas, entre 90 e 70% de obliteração. Era um homem-bomba, sem terrorismo.
Juarez decidiu. Diante do perigo da abjeta e da inominável, admitiu a cirurgia radical. Ele não tem vocação para herói. Como diz o Millôr: “O cara só é totalmente ateu quando está bem de saúde”. Avisou os amigos e a todos solicitou torcida e reza. Mobilizou o antigo colega de seminário de Sobral, Dr. Francisco José Aguiar Moura, presidente da Associação dos Betanistas, para comandar corrente de orações. A dom Edmilson Cruz, seu antigo professor, suplicou bênção e advocacia junto à Deus. Do bispo recebeu a própria Cruz Peitoral, que Dona Maria segurou com fervor durante as seis horas da cirurgia.
No trajeto para o hospital olhava para as ruas com sensação de despedida. Benzia-se quando passava por uma igreja. Internou-se na véspera. Noite insone com dramáticas avaliações da vida. Era chegada a hora.
Sua sorte nas mãos de Deus e dos médicos. Todas as fichas lançadas no pano verde da ciência e na réstia de fé. A equipe médica foi escolhida, com cuidados, por velho e providente amigo, o Dr. João Martins, professor da Medicina da UFC e da equipe do saudoso Dr. Regis Jucá.
O cirurgião escolhido foi o médico baiano Adriano Lima, que agiu com perícia de ourives no coração do vate. O Dr. Sandro Salgueiro, mestre em cateterismo e clínico, o acompanhou no pós-operatório no Hospital da Unimed. Este, com veemência, combateu a cavilação do paciente, a tal lassidão desnecessária. Deu certo. Agora, além de versos novos na alma, Juarez porta três safenas e uma mamária. Assim, com quatro pontes, pode ser considerado quase um acesso vicinal de BR.
Hoje, há amplos horizontes e a renovação com a vida. Juarez é redivivo. Tudo desatravancado, esborniado e preparado para a centúria, ainda longínqua. Depois de bom tempo quarando no hospital, a dor do caminhão sobre seu peito, foi amainando. Voltaram a brilhar as cores e as vozes da fortuna.
Agora, depois da Semana Santa, da comunhão pela graça alcançada, é um homem intenso. Fagueiro, temente a Deus, loquaz e revisado. Atende, pelo celular, a amigos ávidos por tapiocas, por estórias e por afetos nos porvindouros convescotes na sua varanda do Meireles. Calma pessoal. Hosanas, primeiro.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/04/2015

