“A felicidade do escritor é o pensamento que consegue transformar-se completamente em sentimento, é o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento”.
Thomas Mann, escrito
alemão, 1875-1955.
Tenho uma pilha de livros, mais ou menos ordenada, para leitura e posteriores comentários. Entre esses figurava a pendência, não da leitura já feita, mas de um simples escólio, sobre a atividade literária de Juca Fontenelle, cidadão, chefe de família e professor na cidade de Viçosa, terra de Clóvis Beviláqua, na benfazeja Serra Grande. Sobre “Viçosalianas” muito já foi dito, mas destaco o que o advogado José Feliciano de Carvalho, admirador e primo do criador, escreveu na Apresentação do livro: “ …considerando o profundo apreço que sempre tive à moral e ao intelecto do encomiado autor, que foi inesquecível professor e, por isso, responsável pela minha formação cultural, nos primeiros tempos de minha vida. Neste comenos, atentei para a acuidade do autor, tanto histórica como estilística, nas crônicas e nos discursos que compunham a obra, ressaltando a pureza da linguagem e o domínio do idioma”.
Feliciano de Carvalho, por sua personalidade e bagagem cultural, tem estofo para fazer juízo de valor sobre a obra de Juca Fontenelle. Mas, nas orelhas da publicação editada pela Expressão Gráfica, 2010, há manifestações outras que endossam as palavras do apresentador. Na crônica “Quatro de Março”, Juca Fontenelle mostra, de sobejo, conhecimento da sua cidade, da história do Ceará e narra com maestria o acontecido, para os tempos de hoje, no longínquo 1935: “Foi algo tão inusitado na história de Viçosa, que passou a ser denominado simplesmente de ‘quatro de março”. E, quando se referia a isso, havia duas hipóteses, realizando-se fatalmente uma das duas, senão ambas: Uns fechavam o cenho, num ato de mal disfarçado desagrado, enquanto outros apenas dissimulavam um sorriso sarcástico. Antes que a poeira do tempo encubra tudo, vamos registrar neste livreto, um resumo dos acontecimentos desse dia. Na pacatez de Viçosa de então, corria tranquilo o Ano da Graça de 1935. Nem tão tranquilo assim, se considerarmos que era um ano eleitoral. Era então o que se costuma chamar de paz dos pântanos, isto é, pacífica é apenas a superfície, porque abaixo dela qualquer coisa, há um oceano de agitação”.
Bastaria o trecho acima para se notar a narrativa escorreita da escrita de Juca Fontenelle, mas faço questão de quase completar o fato: “Salvo engano, governava o Estado do Ceará, o Interventor Federal Felipe Moreira Lima, Oficial do Exército nomeado pelo ditador Getúlio Vargas em sucessão ao dr. Fernandes Távora, que renunciara, ante a avalanche de paixões demonstrada por correligionários que na Oposição não haviam manifestado tamanha voracidade por cargos e posições (algo como o que ocorre hoje, não é coincidência alguma…)”.
Poderia ir mais longe para destrinchar a história, que fica inconclusa, mas já deu para o leitor perceber o atilado descortino do escritor e o seu conhecimento da realidade factual de um tempo pouco lembrado pelos historiadores locais. Outro ponto que me alegrou foi a tentativa de dar ao leitor comum a oportunidade de conhecer a etimologia de algumas palavras não tão usuais na linguagem coloquial do povo. Além disso, deliciei-me com o “Dialeto Viçosaliano” em que destrincha o palavreado coloquial da terra com deformações de forma, própria dos poucos iniciados no vernáculo como alguns que Juca Fontenelle encontrou em sua longa e profícua vida. Escrever é uma arte e isso fica demonstrado nos escritos que compõem essa obra póstuma. Tomo de Pedro Nava a frase: “A memória dos que envelhecem é o elemento básico na construção da tradição familiar”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/08/2014.

