KEYNES, O FILÓSOFO

Os que mourejam em economia sabem – ou deveriam saber- quem foi John Maynard Keynes. Os outros, naturalmente, não têm a obrigação de sabê-lo. De qualquer sorte, como diria outro economista, Keynes foi o mais famoso economista inglês do atual século, autor da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, e agraciado com o título de Cavalheiro (Sir) pela Casa Real da Inglaterra.
Ocorre que não desejo falar sobre o economista Keynes e sim sobre o pensador Keynes. O estudioso de Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein. O homem que varava horas da madrugada conversando amenidades com um grupo (o badalado “Bloomsbury group”) de amigos intelectuais, dentre os quais Virginia Woolf e os seus lobos imaginários.
Em 1930, Keynes escreveu um ensaio chamado “As possibilidades econômicas de nossos netos”. Nesse trabalho há trechos lindos demonstrando que Keynes era um filósofo, no sentido lato da palavra. Vejamos dois deles: “Quando a acumulação da riqueza não tiver mais uma grande importância social, haverá grandes alterações no código de moralidade. Seremos capazes de nos permitir avaliar em seu real valor o motivo econômico. O amor ao dinheiro como uma posse – diferente do amor ao dinheiro como um meio para o gozo e as realidades da vida – será reconhecido pelo que é: uma morbidade um pouco fastidiosa, uma dessas tendências semicriminosas e semipatológicas que se costuma confiar com arrepios a especialistas em doenças mentais…” “Ele (o homem) não ama o gato, mas os gatinhos do seu gato; na verdade, sequer os gatinhos, mas apenas os gatinhos dos gatinhos, e assim por diante, para sempre, até o fim da gataria. Para ele, uma geléia não é uma geléia, a menos que se trate de uma geléia para amanhã e nunca de uma geléia hoje. Assim, sempre projetando para o futuro sua geléia, ele se esforça em garantir a imortalidade para seu ato de fazê-la”.
Diz mais: “Os ativos e decididos ganhadores de dinheiro podem levar-nos todos ao aconchego da abundância econômica. Mas apenas serão capazes de aproveitar a abundância, quando ela chegar, os que puderem manter viva e cultivar para uma perfeição mais completa a arte de viver, e os que não se vendem pelos meios de vida”.
Nesses trechos Keynes denuncia um defeito comum a quase todos nós: o amor ao dinheiro pela sua mera posse e deixa claro ser essa uma morbidade, só justificando seu uso dignificante para o gozo da vida. Fala também da loucura que é a tendência de muitas pessoas em imaginar que a felicidade é um vir a ser e não o aproveitar as pequenas alegrias do dia a dia, como, por exemplo, admirar e gostar de um simples gatinho.
Ao admitir que os ganhadores de dinheiro poderão levar o mundo a uma abundância, considera apenas que fruirão dessas benesses os que saibam cultivar a arte de viver. Para saber o que Keynes consideraria “cultivar a arte de viver” poder-se-ia dizer, por inferência de seus escritos e dos grupos sociais de que participava, que seria saber dividir o seu tempo entre o dever e o prazer, colocando a amizade e o relacionamento social como um desiderato.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/05/1999.

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