Um leitor pede-me para escrever sobre Kosovo. Não sei nada sobre guerras. O que aprendi no curso de oficiais da reserva, já esqueci. Mesmo que ainda lembrasse, de nada serviria na análise dessa idiotia que levou quase 20 países a se reunirem, sob o manto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), para atacar a Iugoslávia com mísseis e bombas, com o pretexto de serem delegados de uma Europa civilizada e democrática, atuarem contra o inimigo ditador e perverso.
Na ótica do Presidente americano, Bill Clinton, “nossa aliança quer por fim à crise, ao sofrimento dos kosovares, às provações suportadas por uma população sérvia forçada a se envolver numa luta por um líder cínico que despreza seu bem-estar, que esconde dela a verdade sobre o que está acontecendo em Kosovo”. E arremata: “A tragédia de Kosovo deve e precisa incentivar os esforços dos países da Otan, que deverão prolongar-se por algum tempo, para dar suporte ao aprofundamento da democracia e tolerância e à integração étnica e religiosa entre as nações do sudeste europeu”.
Por outro lado, o Presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, não tem o direito de promover matanças e discriminações em nome de uma pureza étnica. É outro idiota. As atrocidades por ele cometidas devem ter o repúdio da comunidade internacional, mas isso não dá o direito a ninguém de fomentar uma nova guerra sob o pretexto de uma intervenção humanística.
Serão os americanos que choram o deplorável e brutal atentado à uma escola em Denver os mesmos que aplaudem a insensatez dos mísseis? Será que os mortos americanos são mais mortos que os mortos da Iugoslávia, sejam sérvios ou kosovares?
A leitura verdadeira de uma guerra, como a que está sendo travada, passa pelo poderoso “lobby” da indústria armamentista, apátrida e sem escrúpulos, pela necessidade de demonstração de poderio militar e de vigilância continental que a OTAN faz na Europa, sob os olhares submissos da Organização das Nações Unidas.
Enquanto isso, na África, milhares de angolanos morrem há anos em luta fratricida e ninguém se interessa ou faz nada. Será que a ONU é cega ou não vê a guerra civil em Angola por que os combatentes são negros e pobres? Igualmente, lá na Ásia, exatamente no Laos, na planície de Jars, se desenvolve outra guerra interna com outros milhares de vítimas. Ora, no Laos eles são asiáticos e pobres, parece dizer a indiferente ONU.
Não há lógica nessa aberração de Kosovo, a chamada “Albright’s War”, como referência à Secretária de Estado americano, Madeleine Albright, e nenhum político, militar ou comentarista de jornal ou televisão consegue dourar a pílula dessa guerra tecnológica, que se dizia asséptica e instantânea.
Noam Chomsky, ativista político americano, é um dos críticos da guerra de Kosovo. Segundo ele, “existe um regime de lei internacional e ordem internacional ao qual todos têm a obrigação de se sujeitar, baseado na Carta e nas resoluções subsequentes da ONU e nas decisões da Corte Internacional de Justiça… Se você não consegue imaginar nenhum meio de obedecer àquele princípio elementar, então não faça nada. Sempre haverá meios que poderão ser considerados. A diplomacia e as negociações nunca serão esgotadas”.
Quem achar que sabe quando e como vai acabar esse conflito pode estar fazendo um arriscado exercício de futurologia. A insensatez dos homens armados e empoleirados em seus aviões e helicópteros é comandada por homens engravatados que sempre afirmam estar lutando pela paz. Quem acreditar nessa história merece um prêmio: uma passagem de ida para Kosovo, com opcionais para Angola e Laos, com tudo pago, até a mortalha.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/05/1999.

