Jean-Michel Vappereau era um jovem matemático francês quando conheceu o já consagrado psicanalista Jacques Lacan nos anos setenta. A psicanálise, como se sabe, é estudada em três níveis: como método de investigação para descobrir o significado inconsciente das palavras, ações, sonhos e fantasias; como método psicoterápico que cuida da interpretação controlada da resistência, da transferência e do desejo; e ainda como um conjunto de teorias psicológicas que sistematizam os dados introduzidos pela investigação e pelo tratamento.
Pois bem, Lacan e Vappereau resolveram estudar juntos e teorizaram sobre conceitos matemáticos e a sua aplicação na arte de curar pessoas. Vappereau virou psicanalista, mas Lacan não se tornou matemático, embora tenha procurado explicar sua teoria, herdeira de Freud, em símbolos, desenhos e conceitos matemáticos. Precavido, Vappereau guardou desenhos, cálculos e manuscritos de Lacan.
Agora, em Paris, certamente precisado de dinheiro, Vappereau autorizou um leilão desse material e faturou bem. Assim, Lacan, depois de morto, é a redenção da família de Vappereau, tal como aconteceu com os manuscritos de Sigmund Freud. A filha de Lacan, Judith (casada com o também psicanalista e executor-testamenteiro de seu pai, Jacques-Alain Miller), nada revelou sobre o que pensou do leilão, mas parece não ter gostado.
A Artcurial, realizadora do leilão em 30 de junho passado, segundo Leneide Duarte-Flon, esperava que psicanalistas ou familiares dessem lances, mas foram colecionadores os que arremataram e não os seguidores do célebre psicanalista francês. O leiloeiro Olivier Devers, ao final do leilão, disse que “os psicanalistas são pão-duro, não gostam de gastar o dinheiro que ganham, nem mesmo quando se trata de Lacan”. Dessa forma, o afamado consultório de Lacan em Paris, na rua de Lille, que hoje pertence ao casal Judith-Jacques Alain, ficará privado desse material.
Elisabeth Roudinesco, que escreve a história da psicanálise, esteve presente ao leilão e disse que “é normal que os manuscritos e desenhos de Jacques Lacan entrem no mercado. Os preços foram razoáveis, afinal é a primeira vez que Lacan é cotado”. Como se deduz, teremos outros leilões e, para não fugir à regra das celebridades, Lacan valerá mais morto do que vivo.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/07/2006.

