A mídia brasileira tem cobrado o legado ao se referir a projetos de infraestrutura nas cidades. A palavra não parece apropriada, pois originária do latim (legatus) com o significado de alguém, o Legado, nomeado pela classe senatorial (legatária) para um posto oficial. Em sentido geral, seria o equivalente a general ou chefe de uma urbe. Como quer a mídia, poder-se-ia dizer que o Império Romano deixou vários legados, especialmente o cultural, imaterial que seja.
Essa palavra da moda é, na realidade, a disposição feita por alguém em testamento. Fulano lega, por escrito, para benefício de Sicrano. Ela é usada para os que atuam na área do direito das sucessões.
Todavia, o maior legado – no sentido da mídia – que qualquer governante pode deixar é chegar perto de zero em analfabetismo. Só 15% dos estudantes são de escolas particulares, 85% frequentam escolas públicas. Há 3,6 milhões de jovens entre 4 e 17 anos que não estudam. A qualidade de parte da escola pública é baixa e muitos a cursam apenas por conta da alimentação recebida.
Segundo o Inep, 1,5 milhões de jovens abandonaram os estudos em 2011. Após a Copa, virão as eleições com os prévios planos dos candidatos a governadores e à Presidência da República.
O Brasil precisa cuidar de múltiplas e complexas questões, mas sem aprendizado eficaz não se pode exercer a cidadania plena e diminuir a desigualdade. O maior legado será apagar a triste mancha da carência e da qualidade da educação. Não há país desenvolvido com iletrados. Educar alguém é torná-lo apto a discernir.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2014

