Neste domingo de Páscoa, os que se acreditam cristãos acordam para o cumprimento de atos religiosos ou curtir o que sobra do feriadão começado na sexta-feira. Acordam em camas, redes, macas hospitalares, enxovias e tiram de sobre os corpos o que usam como lençóis. Podem ser de seda pura, linho de poucos ou muitos fios, algodão, fibra, trapo, plástico ou meros papelões. Quase todos usam algo para cobrir-se como se fosse um manto protetor ou mero aquecedor do frio da alma ou do corpo. A natureza, especialmente nos trópicos e em outros lugares do mundo, nos presenteou com dunas de areias, verdadeiros lençóis. O mais famoso deles, para nós brasileiros, é do estado do Maranhão. A formação peculiar dos Lençóis Maranhenses é um imenso mar de dunas com areias atipicamente frias, entremeado de pequenas lagoas dando à paisagem um belo e quase lunar espetáculo geológico. É provável que neste dia da Ressurreição milhares de pessoas estejam saindo de seus lençóis, orando, bebendo ou passeando em dunas que formam os tais lençóis ou ressurja em revistas, jornais ou tvs a história do Santo Sudário, pano que teria coberto, após a crucificação, o corpo mutilado de Jesus Cristo. Há muito, o Santo Sudário é objeto de crença ou tido como embuste. Há, em Turim, Itália, um lugar onde está depositado o lençol que teria sido dado por José de Arimateia para cobrir o corpo cheio de traumatismos de Jesus. Testes científicos foram feitos com o método do Carbono 14 para tentar provar, pelo menos, o século de sua confecção. Os cientistas concluíram que o tecido seria do século XIV. Os crentes, por sua vez, têm fé nas manchas que não apagam. Por outro lado, nos Estados Unidos foram gastas 140.000 horas em exames microscópicos e outros até concluírem que as imagens não foram feitas por mãos humanas. Mistério da fé? Agora, os lençóis que nos preocupam são os muitos que aparecem, diariamente, em páginas de jornais e em programas de televisão cobrindo corpos inertes e ensanguentados de vítimas da violência. Esses lençóis dados por mãos caridosas deveriam ser o símbolo branco-escarlate da luta pela paz social. Eles não encobrem a nossa vergonha coletiva.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/04/2010.

